
O técnico português Leonardo Jardim estreia no comando do Flamengo na Copa Libertadores da América nesta quarta-feira (8 de abril), às 21h30 (horário de Brasília). A equipe rubro-negra enfrenta o severo desafio geográfico de atuar a 3.350 metros acima do nível do mar contra o time do Cusco, no Estádio Garcilaso de la Vega, localizado no Peru. A partida da fase de grupos exige adaptações drásticas na forma de atuar, considerando os pesados efeitos físicos do ar rarefeito sobre os atletas profissionais.
De acordo com informações do GE Futebol, a comissão técnica já adota estratégias específicas de contingência, incluindo a hospedagem da delegação em um hotel pressurizado. O cenário adverso, frequentemente temido por treinadores europeus que desembarcam no futebol sul-americano, não é uma novidade absoluta para o atual comandante flamenguista. No ano passado, durante sua passagem pelo Cruzeiro, ele vivenciou seu primeiro e único contato prático com o futebol disputado no alto da montanha.
Como foi a primeira experiência de Leonardo Jardim na altitude?
A estreia do treinador europeu em condições geográficas extremas ocorreu na fase de grupos da Copa Sul-Americana, quando a delegação mineira viajou até a cidade equatoriana de Riobamba. O adversário da ocasião foi o Mushuc Runa, em um estádio situado a 2.754 metros de altitude. O contexto daquela partida, no entanto, era bastante desfavorável para as pretensões de classificação na competição continental.
Naquele momento, a equipe celeste somava três derrotas nos três primeiros jogos do torneio e concentrava suas forças nas primeiras posições da tabela do Campeonato Brasileiro. Por conta desse cenário, a escalação escolhida para encarar os equatorianos foi composta majoritariamente por jogadores reservas. Dos habituais titulares do time, apenas o goleiro Cássio e o zagueiro Fabrício Bruno iniciaram o confronto. O resultado final de empate por um a um selou a eliminação matemática dos brasileiros com duas rodadas de antecedência.
Ao analisar retrospectivamente as diferenças cruciais e os obstáculos de atuar nestas condições atmosféricas, o atual comandante rubro-negro destacou o comportamento físico da bola e a dinâmica do jogo:
Minha sensação naquele jogo foi a rapidez da bola. Muitas vezes, essas equipes têm um jogo muito mais direto e de duelos. Temos que colocar a bola no chão e tentar jogar com o nosso DNA. Na fase defensiva, precisamos de atenção. As situações que eles podem criar, como chutes de fora da área, bola parada, precisamos ter mais atenção pela velocidade da bola.
Quais foram os números e as táticas da partida no Equador?
Para tentar anular a evidente desvantagem física e o rápido cansaço provocado pela falta de oxigênio, a estratégia adotada pela comissão técnica no Equador focou em manter o controle da posse de bola. A formação alternativa contava com um elenco mais descansado fisicamente. A tática defensiva funcionou na etapa inicial, garantindo um placar zerado até o momento do intervalo, mas o setor ofensivo sofreu e não conseguiu registrar nenhuma finalização em direção ao gol adversário.
O panorama tático mudou de forma drástica na etapa complementar, quando os donos da casa abriram o placar logo aos oito minutos, com um gol marcado por Orejuela. Apenas sete minutos mais tarde, o atacante Lautaro Díaz, que hoje defende o Santos por empréstimo, empatou o confronto decisivo. O desempenho técnico e estatístico daquele embate revelou dados expressivos sobre o controle de jogo:
- Posse de bola: 62% para a equipe brasileira contra 38% dos equatorianos.
- Troca de passes: 369 passes certos contra 253 dos donos da casa.
- Finalizações: 11 chutes a gol para o Mushuc Runa contra apenas sete do time visitante.
- Escanteios: quatro cobranças para o time local contra duas dos brasileiros.
- Faltas cometidas: 13 infrações registradas pelos anfitriões e dez da equipe celeste.
O que o Flamengo projeta para a estreia na Libertadores?
Apesar da eliminação precoce na Copa Sul-Americana na temporada passada, o trabalho do português no time mineiro rendeu a vaga para a principal e mais prestigiada competição do continente. Logo após o apito final no Equador, o profissional minimizou a queda técnica, cravando publicamente que o grande objetivo da instituição no futuro próximo era disputar o torneio de elite. Após deixar Minas Gerais no fim do ano por motivos estritamente pessoais, ele agora tem a oportunidade de aplicar esse aprendizado prévio em um cenário andino ainda mais hostil e elevado.
A complexa preparação para encarar os mais de três mil metros em Cusco envolve não apenas a física, mas uma mudança tática de mentalidade do plantel. O treinador já alertou seus comandados sobre as inúmeras dificuldades de atuar fora das condições ideais de grandes centros e destacou a necessidade imperativa de contar com atletas dispostos a enfrentar um estilo de jogo pragmático, ríspido e fundamentado no contato físico constante.
Após a sólida vitória por três a um sobre o Santos, válida pela elite do Campeonato Brasileiro, o técnico voltou a avaliar publicamente o árduo desafio que aguarda o elenco de estrelas na estreia continental. Em sua fala, ressaltou a urgência de uma adaptação estrutural da equipe titular:
Essa competição não tem facilidade. Tem jogo na altitude, tem equipes com futebol direto nos seus habitats que favorecem esse tipo de jogo. Temos que fazer uma mudança estrutural para jogadores que estão preparados para esse tipo de luta ao invés de um Maracanã.