O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) proferiu, na primeira semana de abril, a condenação de três integrantes da Mancha Alviverde, a principal torcida organizada da Sociedade Esportiva Palmeiras. A decisão judicial ocorre em resposta à invasão das instalações da Academia de Futebol, o centro de treinamento do clube localizado na Barra Funda, zona oeste da capital paulista, registrada em agosto de 2024. A ação dos torcedores gerou um boletim de ocorrência na época e culminou em um processo criminal contra as principais lideranças do grupo.
De acordo com informações do GE, as sentenças estipulam penas de detenção, multas financeiras e a prestação de serviços à comunidade para os envolvidos, variando conforme o grau de participação e a posição hierárquica que cada um ocupava dentro da instituição de torcedores no momento do incidente.
Como a Justiça definiu as penas dos líderes da organizada?
O processo teve como réus três figuras de destaque na diretoria da agremiação, que receberam as seguintes punições estabelecidas pelo magistrado responsável pela ação penal:
- Jorge Luis Sampaio dos Santos (então presidente): Oito meses de detenção em regime semiaberto.
- Felipe Mattos dos Santos (vice-presidente): Sete meses de detenção em regime aberto.
- Thiago Amorim de Melo (vice-presidente): Seis meses de detenção em regime aberto.
Além das penas de detenção, o tribunal estipulou que o trio de condenados precisará arcar com o pagamento de multas financeiras estabelecidas pela corte e realizar a devida prestação de serviços à comunidade, atuando como uma forma de reparação social pelo ato cometido nas dependências da agremiação esportiva.
Quais foram os argumentos da defesa e a resposta do juiz?
Durante o andamento da ação penal, a equipe de defesa dos três membros da organizada tentou buscar a absolvição sustentando duas teses principais no tribunal. Os advogados alegaram a atipicidade da conduta, argumentando a ausência de dolo por parte dos réus, e apontaram uma suposta insuficiência de provas materiais que justificasse a emissão de um decreto condenatório formal.
No entanto, o juiz Sergio Duarte, responsável pela análise judicial do caso, rejeitou frontalmente as justificativas apresentadas pelos defensores durante o julgamento. Para basear sua decisão, o magistrado foi enfático ao descrever a natureza da ação realizada pelos invasores, destacando em seu despacho oficial que a intenção de violar o espaço privado ficou evidente:
“Ao forçarem a entrada, demonstraram o dolo direto de violar a privacidade e a segurança do local de trabalho alheio, desprezando a vontade contrária manifesta pela segurança e pela própria estrutura do estabelecimento. A tese de que a intenção era apenas ‘conversar’ e que a entrada foi ‘pacífica’ não se sustenta diante do conjunto probatório”
Como ocorreu a invasão ao centro de treinamento do clube?
O incidente criminoso que originou o processo penal aconteceu na tarde do dia 1º de agosto de 2024. Na ocasião, um grupo formado por cerca de vinte torcedores vinculados à agremiação Mancha Alviverde se dirigiu até a Academia de Futebol. Segundo os relatos presentes nos autos, os indivíduos se aproveitaram de um momento específico em que o portão principal do centro de treinamento foi aberto para efetuar a entrada abrupta nas instalações físicas, causando forte apreensão entre os funcionários e seguranças que prestavam serviço no local.
O objetivo declarado pelos invasores era estabelecer uma conversa direta e presencial com as principais lideranças do elenco de jogadores profissionais e com o técnico português Abel Ferreira. Apesar de terem rompido a barreira inicial da portaria de forma irregular, o grupo não obteve êxito na tentativa de acessar as áreas internas e mais restritas do complexo esportivo palestrino. Após permanecerem nas dependências do clube por cerca de trinta minutos, os torcedores deixaram o local. Imediatamente após a saída não autorizada, o departamento jurídico e a segurança da instituição registraram o caso formalmente por meio de um Boletim de Ocorrência policial.
Qual é o contexto histórico entre a diretoria e a torcida?
A resolução deste processo em primeira instância ocorre cerca de dois meses após o Tribunal de Justiça receber oficialmente a denúncia elaborada, fato registrado em 22 de janeiro de 2026. Durante a fase de instrução processual na Justiça paulista, nomes importantes do departamento de futebol palmeirense prestaram depoimento para esclarecer a dinâmica real da invasão. Anderson Barros, diretor de futebol da instituição, e Richard Bezerra, gerente operacional da Academia de Futebol, foram ouvidos como testemunhas fundamentais para a construção do conjunto de provas que sustentou a referida condenação judicial dos membros da uniformizada.
O episódio de invasão reflete diretamente o clima de alta tensão que se arrasta há anos nos bastidores políticos do clube paulista. Existe um rompimento oficial e público entre a presidente Leila Pereira e a cúpula diretiva da Mancha Alviverde. Esta severa ruptura institucional teve início logo nos primeiros meses da atual gestão administrativa, ainda em 2022. Desde aquele momento, a diretoria executiva tem adotado uma postura declarada de tolerância zero com as ações coercitivas provindas de torcidas organizadas, o que culminou no rompimento definitivo das relações.