O ex-jogador Júnior Moraes decidiu romper o silêncio sobre os momentos traumáticos que enfrentou ao fugir da guerra na Ucrânia e as sequelas físicas e mentais vividas durante sua passagem pelo Corinthians. Aposentado dos gramados há dois anos, o ex-atleta detalha em seu novo livro como liderou um grupo de 40 brasileiros para escapar dos ataques russos em 2022 e como a falta de saúde mental impactou diretamente o seu rendimento físico no futebol brasileiro.
De acordo com informações do GE Futebol, o ex-atacante do Shakhtar Donetsk relatou que a experiência no leste europeu gerou cicatrizes profundas. A obra literária lançada pelo esportista visa conscientizar o público sobre a importância do acompanhamento psicológico após episódios de estresse extremo.
Como aconteceu a fuga dos jogadores no início da guerra?
A lembrança do dia 24 de fevereiro de 2022 permanece intacta para o ex-atleta. Na ocasião, ele relatou que sua família chegaria ao país dois dias antes do início do conflito, mas a viagem foi cancelada porque a babá testou positivo para a Covid-19. O despertar na data dos ataques ocorreu às cinco horas da manhã, quando seu fisioterapeuta o alertou sobre os mísseis em Kiev.
Eu não queria me abrir para a imprensa e nem para ninguém. Eu achei que era uma guerra minha comigo mesmo, que eu tinha que lutar sozinho. E hoje eu posso falar para os atletas, para todo mundo, que essa guerra não é sua. Você precisa de ajuda, você precisa compartilhar isso com as pessoas certas, com os profissionais certos. Você precisa entender que a batalha da mente é a maior batalha que a gente pode enfrentar
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A partir daquele momento, o objetivo passou a ser a sobrevivência coletiva. O grupo de 40 brasileiros, composto por jogadores, familiares, idosos e crianças, buscou abrigo em um hotel que não possuía um bunker adequado, mas oferecia uma sala isolada entre paredes no centro do edifício para proteção contra os estilhaços.
Quais foram as estratégias para deixar o território ucraniano?
A situação exigiu negociações de alto nível e logística rápida. O brasileiro manteve contato com o governo do Brasil e com Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, que buscou alternativas de resgate junto à federação local de futebol. Após quatro dias no hotel improvisado, o grupo conseguiu embarcar em uma viagem de trem que demorou o dobro do tempo habitual devido à zona de conflito armado.
A relação do jogador com o país era profunda, consolidada ao longo de quase dez anos de atuação em equipes locais:
- Metallurg Donetsk
- Dínamo de Kiev
- Shakhtar Donetsk
Além do tempo nos clubes, ele se naturalizou ucraniano e disputou 11 partidas oficiais pela seleção principal. A saída emergencial e a despedida forçada da nação adotiva causaram um choque emocional imprevisto, agravando o trauma da guerra.
De que forma o trauma afetou a passagem pelo Corinthians?
Ao retornar ao Brasil, o atacante foi contratado pelo time paulista com o desejo de retomar a carreira e promover a paz na Ucrânia. No entanto, o retorno aos gramados revelou que o corpo não suportava a carga emocional acumulada. A passagem pelo clube alvinegro foi marcada por graves crises alérgicas, febres inexplicáveis, dores constantes e inchaços no rosto.
Eu fazia muita força para conseguir treinar, para ir aos jogos, mas eu nunca conseguia chegar nem perto do meu normal. Tomava várias injeções de imunidade, até por uma desconfiança de ter uma doença autoimune, então eu pagava 12 mil reais em cada injeção. Uma por semana. Antes do meu único gol pelo Corinthians, eu passei a madrugada no hospital tomando remédio para desinchar a cara depois de uma crise alérgica.
Com apenas 21 jogos disputados e um gol marcado, o atleta acabou afastado pelo então técnico Vanderlei Luxemburgo. O cenário levou a um embate na Justiça do Trabalho para garantir a rescisão do contrato. Posteriormente, as partes firmaram um acordo judicial no qual o clube pagou as dívidas pendentes, enquanto o ex-jogador abriu mão de indenizações por danos morais e outras verbas rescisórias.
O anúncio definitivo da aposentadoria ocorreu cerca de um ano após a saída do time paulista. A decisão foi tomada quando o atleta compreendeu que a prioridade deveria ser a saúde mental e a dedicação à família. Através de seu livro recém-lançado, ele busca transformar as dificuldades enfrentadas em uma ferramenta de auxílio para o público.