Juiz de Fora segue tentando se recuperar um mês depois dos temporais que atingiram a cidade e a Zona da Mata mineira em fevereiro de 2026. No relato da jornalista Júlia Pessôa, publicado em 24 de março de 2026, a tragédia deixou marcas materiais e emocionais duradouras, enquanto moradores, poder público e imprensa ainda lidam com perdas, desinformação e os efeitos de uma cobertura que projetou o município para o noticiário nacional e internacional. De acordo com informações do Projeto Colabora, a cidade viveu o fevereiro mais chuvoso de sua história recente, com volume concentrado em poucos dias. O caso ajuda a ilustrar um desafio recorrente em cidades brasileiras de médio porte: responder a eventos climáticos extremos com estrutura pública pressionada e necessidade simultânea de assistência, informação e reconstrução.
No texto, a autora afirma que saiu do trabalho na noite de 23 de fevereiro de 2026, durante uma breve trégua da chuva, sem imaginar que entraria em um período contínuo de trabalho, tensão e tristeza. Servidora da Prefeitura de Juiz de Fora, ela descreve a experiência de acompanhar a calamidade a partir do poder público, em meio à necessidade de organizar informações para atender à forte demanda da imprensa brasileira e estrangeira.
Como a autora descreve o impacto da tragédia em Juiz de Fora?
Júlia Pessôa relata que, embora já tivesse coberto tragédias menores como repórter, nunca havia enfrentado uma situação com a mesma dimensão. Segundo o artigo, em dois dias choveu quase metade do previsto para o ano inteiro no município. A autora associa esse cenário à destruição provocada pelos temporais e ao sofrimento de pessoas que perderam familiares, bens e referências construídas ao longo da vida.
Ao tratar da dimensão humana da calamidade, ela afirma que o mais importante, naquele momento, era lidar com a perda alheia e buscar caminhos para reduzir um sofrimento que atinge o bolso, o corpo, a memória e a vida cotidiana. O artigo também destaca que, mesmo com a ampla visibilidade da tragédia, não há alívio imediato para quem permanece no território afetado. Para além do impacto local, episódios como esse entram no debate nacional sobre prevenção de desastres, drenagem urbana e capacidade de resposta dos municípios diante de chuvas intensas.
Por que a relação entre dor e cobertura jornalística é central no texto?
A coluna dialoga diretamente com o verso “a dor da gente não sai no jornal”, de Chico Buarque, para afirmar o oposto no caso de Juiz de Fora. A autora sustenta que a dor dos moradores apareceu, sim, em jornais, emissoras e veículos de diferentes países, e considera isso necessário diante da gravidade do episódio. Ao mesmo tempo, pondera que a exposição pública da tragédia não diminui o sofrimento de quem vive suas consequências.
“a dor da gente não sai no jornal”
No relato, Juiz de Fora é apresentada como uma cidade acostumada a cultivar imagens positivas sobre si, mas que, desta vez, ganhou projeção por causa da devastação. Localizado na Zona da Mata, o município é um dos principais centros urbanos do interior de Minas Gerais, o que amplia a repercussão de crises que afetam sua infraestrutura e sua rotina. A autora menciona entrevistas solicitadas por veículos internacionais e descreve a sensação de ver a tragédia local repercutida em diferentes idiomas e plataformas de comunicação.
Quais críticas o texto faz à desinformação e à cobertura em meio à crise?
Além de reconhecer o papel do jornalismo na divulgação dos fatos, a autora critica a circulação de boatos e de informações sem checagem. Segundo ela, parte desse conteúdo teria sido produzida com o objetivo de capitalizar politicamente ou socialmente o sofrimento alheio, seja em votos, curtidas ou outras formas de visibilidade.
O artigo também registra que, apesar de ter encontrado desrespeito vindo de uma parcela minoritária da imprensa, a maior parte dos profissionais seguiu atuando de forma correta. A autora contrapõe esse trabalho responsável à busca por protagonismo a qualquer custo em meio a uma situação de calamidade.
- Demanda intensa de informações por parte da imprensa nacional e internacional
- Necessidade de checagem em meio ao caos e ao desolamento
- Circulação de boatos durante a crise
- Persistência das perdas materiais e emocionais entre os moradores
O que permanece um mês depois dos temporais?
Na parte final da coluna, Júlia Pessôa afirma que, enquanto a atenção de parte do público e da mídia já se deslocou para outros temas, quem permaneceu em Juiz de Fora continua tentando juntar os cacos e seguir adiante. A imagem usada por ela é a de uma cidade que ainda lambe as feridas, engole o choro quando consegue e o deixa vir quando já não dá para conter.
O texto termina com uma nota de esperança, evocando outro samba para expressar o desejo de reconstrução emocional e material. Mais do que registrar números ou danos estruturais, a coluna funciona como um testemunho sobre o que significa permanecer no território depois que os holofotes se apagam e a rotina passa a ser a reconstrução possível.
“O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações”



