O povo indígena Paiter Suruí avança na consolidação do Jardim Botânico Paiter Suruí, um complexo inaugurado em 2025 que une etnoturismo, sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas. Localizado na Terra Indígena Sete de Setembro, no município de Cacoal, a cerca de 480 km da capital Porto Velho, no interior de Rondônia, o espaço busca criar alternativas econômicas sustentáveis para a comunidade. A iniciativa atua diretamente como uma barreira de proteção ambiental contra o avanço do desmatamento e das invasões na região amazônica.
De acordo com informações da Folha Ambiente, o trabalho é estruturado no projeto Semeando Florestas Indígenas. Essa frente de atuação combina o reflorestamento do território com o comércio de créditos de carbono e a geração de renda por meio de produtos originários da floresta. O líder do empreendimento, cacique Almir Suruí — reconhecido internacionalmente por seu pioneirismo no uso de tecnologias para a preservação territorial —, destaca que a estruturação dessas cadeias produtivas é fundamental para garantir a autonomia econômica de sua comunidade.
Como o etnoturismo e a bioeconomia funcionam na prática?
O complexo oferece aos visitantes uma imersão completa na cultura indígena local. As atividades incluem hospedagem projetada para pequenos grupos, trilhas guiadas pela mata nativa, experiências culturais diversas e o contato direto com a gastronomia tradicional do povo Paiter Suruí. Atualmente, o local já recebe turistas brasileiros e estrangeiros, atraídos pela oportunidade de vivenciar o cotidiano da floresta de maneira respeitosa.
A comercialização de pacotes turísticos, que englobam excursões e passagens aéreas, é realizada com o suporte da startup brasileira 6Wings. A empresa de tecnologia atua como parceira na captação de recursos e na viabilização comercial do empreendimento, garantindo que a infraestrutura local possa atender à demanda turística sem perder a sua essência preservacionista.
Quais são os projetos agroflorestais desenvolvidos no território?
Além do ecoturismo, a sustentabilidade financeira da aldeia é impulsionada pela produção de alimentos e outros recursos atrelados à bioeconomia. O objetivo principal é desenvolver negócios próprios baseados no cultivo de itens como castanha, mel, café e cacau. Uma das principais frentes de inovação é a fase de implantação de uma biofábrica de chocolate dentro da reserva.
Este espaço prevê a instalação de maquinário industrial especializado para o processamento do cacau cultivado na própria área. A iniciativa também foca na capacitação dos jovens indígenas, preparando as novas gerações para administrar e operar toda a cadeia produtiva, desde o plantio agroflorestal até a fabricação do produto finalizado para o mercado.
O objetivo central do projeto vai além do aspecto financeiro, conforme explica Almir Suruí:
“A gente quer fazer ali um intercâmbio de conhecimentos científicos, tradicionais e tecnológicos. No jardim botânico, queremos nos aliar, comunicar e compartilhar, tudo isso em uma área de turismo e cultura.”
Por que a iniciativa busca financiamento internacional?
A captação de recursos é considerada vital para conter as pressões externas sobre a terra indígena. A ausência de alternativas econômicas sólidas frequentemente deixa as comunidades expostas e os territórios vulneráveis ao assédio de atividades predatórias. No contexto da região de Cacoal, a pecuária extensiva já foi uma grande preocupação, mas o foco atual de resistência das lideranças é impedir o avanço do garimpo ilegal de ouro.
Para alavancar o projeto e garantir a sua expansão estrutural, o cacique Almir Suruí tem buscado firmar parcerias internacionais. Em março de 2026, o líder indígena participou ativamente da programação anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), realizada em Assunção, no Paraguai. Durante o evento voltado para a América Latina e o Caribe, ele articulou o apoio de lideranças econômicas representantes de 48 países.
A meta dessa articulação diplomática e econômica é financiar novas infraestruturas no jardim botânico. Entre as principais reivindicações apresentadas no Paraguai está a construção de um museu dedicado integralmente à preservação da memória da etnia, englobando registros históricos desde o primeiro contato documentado com os não indígenas — ocorrido oficialmente em 1969 — até os dias atuais.
Qual é o papel das comunidades nativas nas mudanças climáticas?
A atuação do povo Paiter Suruí ilustra a importância da presença indígena na preservação dos biomas brasileiros e no debate global sobre o clima. Segundo os idealizadores, a sabedoria ancestral, aliada a novas tecnologias, forma um escudo efetivo contra a degradação ambiental acelerada. O projeto defende que a inovação dentro das aldeias deve ser tratada como uma ferramenta oficial de gestão territorial pelo poder público.
A consolidação do complexo turístico e ambiental reforça pontos determinantes para a conservação da Amazônia:
- O fortalecimento da bioeconomia como barreira contra o desmatamento e o avanço do garimpo ilegal;
- A geração de emprego e renda que garante a permanência e a subsistência dos jovens nas aldeias;
- O uso do conhecimento tradicional histórico aliado às inovações científicas de mercado;
- A manutenção da floresta em pé, considerada essencial para a mitigação dos impactos extremos das mudanças climáticas globais.