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Japão não enviou navios ao Estreito de Ormuz; vídeo viral é de 2022

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É falso que o Japão tenha enviado navios de guerra ao Estreito de Ormuz para apoiar uma ação liderada pelos Estados Unidos, segundo checagem publicada nesta terça-feira, 31 de março de 2026. O vídeo que circula nas redes sociais e atribui a movimentação à atual tensão na região mostra, na verdade, uma exibição militar realizada em novembro de 2022 na Baía de Sagami, na província de Kanagawa, no Japão. De acordo com informações do g1 Mundo, a Embaixada do Japão no Brasil negou que embarcações da Força de Autodefesa japonesa tenham sido enviadas atualmente para o estreito.

A publicação enganosa foi feita em 22 de março no X e já havia ultrapassado 126 mil visualizações, segundo a checagem original. O post exibe imagens de embarcações militares japonesas, incluindo um porta-aviões, e afirma que o país asiático teria atendido a uma pressão para atuar na região, considerada estratégica para o fluxo global de petróleo. O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao mar aberto e é uma das principais rotas de escoamento de petróleo do mundo. A informação, porém, não procede.

O que mostra o vídeo que circula nas redes?

A verificação da origem das imagens foi feita por meio de busca reversa com um frame do vídeo. O procedimento levou a um registro publicado em 6 de novembro de 2022 pela agência japonesa Jiji Press. Na ocasião, a Marinha do Japão promovia uma exibição de embarcações militares em alto-mar, na Baía de Sagami, ao largo da costa de Kanagawa.

Segundo a reportagem original, participaram do evento 18 navios de 12 nações, entre elas Austrália, Canadá, Índia e Estados Unidos, além de seis aviões de combate franceses e americanos. Ou seja, o vídeo é real, mas foi retirado de seu contexto original para sustentar uma narrativa falsa sobre uma suposta operação militar japonesa no Oriente Médio.

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O Japão enviou embarcações ao Estreito de Ormuz?

Não. A Embaixada do Japão no Brasil afirmou ao Fato ou Fake:

“Não há navios da Força de Autodefesa do Japão atualmente enviados para o Estreito de Ormuz. Esta postagem no X é uma informação falsa”.

O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima estratégica, controlada pelo Irã, que conecta o Golfo Pérsico ao mar aberto. A região ganhou ainda mais relevância após o início das ofensivas de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã em 28 de fevereiro, quando o regime iraniano determinou o fechamento da passagem para navios cargueiros americanos e de países aliados a Washington, elevando a pressão sobre a oferta mundial de petróleo.

O texto checado também cita que, em 22 de março, a Reuters noticiou que o Japão avaliava a possibilidade de enviar embarcações especializadas para desminagem no Estreito de Ormuz, mas somente após um cessar-fogo. Em 24 de março, a Otan informou que um grupo de 22 países, incluindo aliados do Oriente Médio e da Ásia, preparava ações para o restabelecimento total da rota, sem detalhar como isso ocorreria.

Por que a participação militar japonesa é tratada com cautela?

O pesquisador Leonardo Paz, do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas, explicou ao Fato ou Fake que a Constituição japonesa de 1947 impôs limites relevantes às Forças Armadas do país. O Artigo 9 da Constituição do Japão é conhecido por restringir o uso da força militar pelo país, num marco do arranjo institucional do pós-Segunda Guerra. Segundo ele:

“A Constituição japonesa foi redigida sob a supervisão americana no Pós-Guerra, de maneira a tornar o Japão um regime pacifista, como se comprova pelo Artigo 9. Isso significa que as Forças Armadas japonesas são orientadas para a defesa do próprio território e priorizaram, ao longo de todas as últimas décadas, o uso de equipamentos mais defensivos, como sistemas anti-aéreos”.

O pesquisador acrescentou que houve mudanças a partir de 2015, com uma ampliação da noção de autodefesa coletiva, mas isso não altera o quadro atual apontado pela checagem. Em outro trecho, ele avaliou que o Japão não tem condições de liderar uma ação militar para garantir o domínio do Estreito de Ormuz neste momento.

“Para garantir o domínio do Estreito de Ormuz, você teria que ocupar basicamente a parte sul do Irã, obviamente limpar todo tipo de equipamento de defesa e criar uma zona também de exclusão aérea para interceptar os drones que viessem de mais longe. Então, assim, é dificílimo. O Japão não é o país que tem condição de ajudar nessa questão. O que o Japão já se colocou à disposição de fazer, eventualmente, num contexto em que o conflito já esteja arrefecido, é uma embarcação chamada mine sweeper para desminar o Estreito. Mas, fora isso, a capacidade militar do Japão é muito pequena”.

Em resumo, a checagem conclui que o conteúdo viral reutiliza imagens autênticas de 2022, mas engana ao associá-las ao atual conflito no Estreito de Ormuz. Os principais pontos verificados foram:

  • o vídeo não foi gravado no contexto atual da crise no Oriente Médio;
  • as imagens mostram uma exibição militar de novembro de 2022 na Baía de Sagami;
  • a Embaixada do Japão no Brasil negou o envio atual de navios japoneses ao estreito;
  • havia apenas avaliação sobre eventual apoio com embarcação de desminagem, e não envio de navios de guerra.

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