O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) encerrou na noite de 27 de março de 2026 sua 64ª sessão plenária em Bangkok, na Tailândia, após quatro dias de discussões sobre a revisão dos princípios e procedimentos que orientam o trabalho do organismo e sobre o cronograma do Sétimo Relatório de Avaliação, o AR7. De acordo com informações do IPCC, os governos-membros decidiram deixar a análise desses temas para sessões futuras, com indicação clara de que desejam fechar o calendário do AR7 no próximo encontro.
Para o Brasil, a definição do calendário do AR7 é relevante porque os relatórios do IPCC servem de referência técnica para políticas climáticas, planos de adaptação e posições levadas pelo país às negociações internacionais do clima, como as conferências da ONU. O Brasil é um dos 195 Estados-membros do painel e participa das deliberações do organismo.
A plenária tratou de regras consideradas centrais para preservar a capacidade do IPCC de produzir avaliações amplas, neutras, objetivas, transparentes, inclusivas e robustas sobre a ciência do clima. Embora a revisão dessas normas devesse ocorrer a cada cinco anos, o painel optou por continuar a discussão mais adiante. No caso do AR7, não houve deliberação formal, mas os representantes dos governos sinalizaram a intenção de aprovar a linha do tempo na próxima sessão.
O que foi decidido na 64ª sessão plenária do IPCC?
Segundo o comunicado, o painel decidiu considerar em sessões futuras a revisão dos princípios e procedimentos do IPCC. Também ficou para discussão posterior o cronograma do Sétimo Relatório de Avaliação. A sessão, portanto, terminou sem decisão final sobre esses dois pontos, embora tenha havido manifestação política dos governos-membros em favor de definir o calendário do AR7 no próximo encontro.
O presidente do IPCC, Jim Skea, afirmou no encerramento que o organismo busca consenso em suas deliberações. Em fala reproduzida pelo comunicado oficial, ele ressaltou o esforço de conciliação entre os participantes.
“No IPCC, usamos nossos melhores esforços para alcançar consenso. Às vezes, ao perseguirmos esse objetivo, seguimos em direções ligeiramente diferentes. Mas acredito que o espírito de compromisso e flexibilidade no IPCC foi demonstrado no fim.”
Quais outros temas foram discutidos em Bangkok?
Durante os quatro dias de sessão, os integrantes do painel também analisaram a situação financeira e a captação de recursos para o Fundo Fiduciário do IPCC, tanto neste ciclo quanto no longo prazo. De acordo com o órgão, o fundo é sustentado integralmente por contribuições voluntárias dos governos-membros e é o principal mecanismo para viabilizar a participação de governos e cientistas de países em desenvolvimento nas atividades do painel.
Além disso, a plenária aprovou o programa de trabalho do Grupo de Tarefas para Suporte de Dados às Avaliações sobre Mudanças Climáticas. O encontro também marcou a última sessão plenária do secretário do IPCC, Abdalah Mokssit, que comandou o secretariado do organismo na última década e deve se aposentar nos próximos meses. Segundo o texto, delegados, integrantes do bureau, organizações observadoras e funcionários manifestaram reconhecimento por sua atuação.
- Revisão dos princípios e procedimentos ficou para sessões futuras
- Cronograma do AR7 ainda será definido
- Governos indicaram que querem fechar esse calendário no próximo encontro
- Situação financeira do Fundo Fiduciário foi debatida
- Programa de trabalho do grupo de suporte de dados foi aprovado
O que é o IPCC e qual é o papel do AR7?
O IPCC é o órgão das Nações Unidas responsável por avaliar a ciência relacionada às mudanças climáticas. Foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial. O painel reúne 195 Estados-membros e produz avaliações científicas periódicas para subsidiar formuladores de políticas públicas e negociações internacionais sobre o clima.
Atualmente, o organismo está em seu sétimo ciclo de avaliação, iniciado formalmente em julho de 2023. Nesse ciclo, o IPCC prevê a elaboração dos relatórios dos três grupos de trabalho, dedicados à base física da mudança do clima, aos impactos e à adaptação, e à mitigação. O relatório-síntese do AR7 deverá ser produzido após a conclusão desses documentos e, segundo o comunicado, tem previsão de divulgação até o fim de 2029.
No caso brasileiro, esse cronograma é acompanhado de perto porque os relatórios do IPCC costumam embasar diagnósticos sobre vulnerabilidades climáticas, estratégias de mitigação de emissões e planejamento de adaptação em diferentes níveis de governo. As conclusões do painel também influenciam o debate internacional em que o Brasil atua, inclusive no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
O texto oficial também relembra decisões anteriores do ciclo atual, como a aprovação, em fevereiro de 2025, dos esboços das contribuições dos três grupos de trabalho para o AR7, e o acordo, em outubro de 2025, sobre o conteúdo científico do relatório metodológico de 2027 sobre remoção de dióxido de carbono, captura, uso e armazenamento de carbono. Também seguem previstos um relatório especial sobre mudanças climáticas e cidades e um relatório metodológico sobre forçantes climáticos de curta duração.
A mais recente grande avaliação concluída pelo IPCC foi o Sexto Relatório de Avaliação, finalizado em março de 2023 com a publicação de seu relatório-síntese. Segundo o comunicado, esse material serviu como contribuição científica direta ao primeiro Global Stocktake no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, durante a COP28, em Dubai.
