O agravamento dos bloqueios de internet no Irã em 2026 levou grupos de direitos digitais a defenderem uma alternativa às VPNs e aos terminais da Starlink: a tecnologia Direct-to-Cell (D2C), que conecta smartphones diretamente a satélites. A proposta ganhou força em meio ao segundo apagão prolongado de comunicações no país neste ano, em um contexto de restrições estatais, limitação de aplicativos permitidos e dificuldades para manter o acesso à rede global. De acordo com informações do TechRadar, duas organizações de direitos digitais defendem que a infraestrutura emergente de D2C seja priorizada por empresas de tecnologia e formuladores de políticas públicas. Embora o debate esteja centrado no Irã, o avanço do D2C também é relevante para o Brasil, onde a conectividade por satélite já entra na discussão sobre cobertura em áreas remotas e resposta a emergências em regiões com infraestrutura limitada.
Segundo a reportagem, métodos tradicionais de contornar censura online perderam eficácia diante de interrupções mais amplas da infraestrutura e do chamado sistema de “lista branca”, no qual apenas aplicativos aprovados pelo Estado permanecem acessíveis. Nesse cenário, o uso de VPNs se torna insuficiente, enquanto alternativas via satélite, como a Starlink, esbarram em custos, riscos de rastreamento e necessidade de equipamentos físicos.
Por que VPNs e Starlink enfrentam limites nesse cenário?
O texto informa que as VPNs continuam úteis em vários países para driblar bloqueios de sites específicos, mas têm atuação reduzida quando há paralisação estrutural da conectividade. No caso iraniano, as restrições incluem não apenas filtragem de conteúdo, mas também interrupções mais profundas da rede e controle sobre quais aplicativos podem funcionar.
A Starlink, por sua vez, aparece como uma saída parcial, mas com obstáculos relevantes. A dependência de terminais físicos cria gargalos logísticos e amplia a exposição dos usuários. A diretora de políticas e advocacy para Oriente Médio e Norte da África da Access Now, Marwa Fatafta, afirmou ao TechRadar que os terminais podem ser identificados e localizados, além de terem custo elevado e acesso restrito.
“Os terminais da Starlink podem ser identificados e localizados.”
A mesma avaliação aponta que obter esse tipo de equipamento é caro e não está ao alcance de todos, o que, segundo a fonte, transforma o acesso em uma questão de privilégio. A reportagem também relata que autoridades iranianas vêm aprimorando formas de limitar o tráfego por satélite. Durante o bloqueio de 8 de janeiro, usuários teriam enfrentado perda de pacotes de até 30%.
O que é a tecnologia Direct-to-Cell?
O Direct-to-Cell, ou D2C, é uma tecnologia que permite o envio de mensagens e o acesso à internet por meio da conexão direta entre o smartphone e um satélite. Diferentemente da Starlink, o modelo não exige antenas, pratos ou roteadores em solo para funcionar. Na prática, a proposta é reduzir a dependência de hardware dedicado e tornar a conectividade menos visível e mais simples de acessar.
De acordo com a reportagem, parte da base técnica para esse tipo de conexão já existe em muitos smartphones fabricados a partir de 2020. O texto cita como exemplo recursos que sustentam o Emergency SOS via Satellite da Apple. Também menciona a expansão dessa capacidade por empresas e parcerias no setor, incluindo iniciativas da SpaceX com a T-Mobile, da Apple com a Globalstar e da AST SpaceMobile com AT&T, Verizon, Vodafone e Orange. No cenário brasileiro, discussões sobre conectividade direta por satélite podem ganhar peso especialmente em áreas rurais, na Amazônia e em locais sujeitos a falhas de cobertura terrestre, onde a comunicação costuma depender de infraestrutura mais escassa.
- O D2C conecta o celular diretamente ao satélite;
- Não exige terminal físico como no modelo tradicional da Starlink;
- Pode usar recursos já presentes em smartphones mais recentes;
- Depende de avanços regulatórios e técnicos para ampla adoção.
Por que os grupos de direitos digitais defendem essa solução?
A reportagem informa que a Access Now e a WITNESS lançaram neste ano uma iniciativa conjunta voltada ao D2C. O objetivo é pressionar fabricantes e autoridades a acelerarem marcos legais e técnicos necessários para implementar essa tecnologia em larga escala, especialmente em situações de crise e censura.
Mahsa Alimardani, diretora associada do programa Technology Threats & Opportunities da WITNESS, afirmou ao TechRadar que o momento atual é decisivo para incorporar considerações de direitos humanos ao desenho dessa infraestrutura. Segundo ela, a preocupação é garantir que a expansão do D2C já nasça com mecanismos de proteção adequados.
“Queremos nos antecipar para garantir que haja considerações de direitos humanos e mecanismos incorporados à forma como isso será implementado.”
Marwa Fatafta também classificou o D2C como uma “solução para o futuro” e defendeu planejamento prévio por parte de legisladores e grandes empresas de tecnologia. Entre as medidas apontadas no texto estão a obtenção de licenças, a definição de espectro para operação e o desenvolvimento de protocolos capazes de responder rapidamente a emergências.
Quais desafios ainda impedem a adoção ampla?
Embora o potencial da tecnologia seja destacado, a própria reportagem aponta limitações. As primeiras versões do D2C mostraram utilidade em desastres humanitários, mas geralmente dependem de cooperação com operadoras locais de telefonia. Segundo Alimardani, esse modelo não seria viável no Irã, porque provedores controlados pelo Estado tenderiam a bloquear métodos de contorno.
Por isso, a aposta das organizações está em uma segunda geração do D2C, capaz de superar esse entrave. O argumento central é que, diante de conflitos, censura digital sofisticada e apagões de comunicação, essa tecnologia pode representar uma alternativa mais resiliente para manter pessoas conectadas quando outros meios falham. Para o Brasil, o tema também dialoga com debates regulatórios sobre espectro, telecomunicações e cobertura em regiões de difícil acesso, ainda que o texto original trate do uso da tecnologia em contextos de restrição e crise.

