Larry Fink, CEO da BlackRock, afirmou nesta segunda-feira, 23 de março de 2026, em sua carta anual aos acionistas, que a inteligência artificial pode ampliar a desigualdade ao concentrar riqueza em empresas e investidores que já financiam a expansão do setor. O alerta foi feito a partir de Nova York, no contexto da corrida global por investimentos em IA, e destaca o risco de que os ganhos econômicos da tecnologia fiquem restritos a um grupo reduzido de participantes. Para o Brasil, o debate tem relevância porque a adoção de IA também avança em empresas, bancos, varejo e serviços, enquanto o acesso aos ganhos financeiros dessa expansão tende a ficar mais concentrado entre grandes companhias e investidores com maior capacidade de aportar capital.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo/UOL Notícias, com reportagem de Eric Platt, do Financial Times, Fink disse que uma parcela crescente da população dos Estados Unidos sente que o capitalismo não está funcionando. Na avaliação do executivo, a IA pode reproduzir esse padrão em escala ainda maior, caso os indivíduos não tenham meios de participar de sua valorização. O ponto dialoga com discussões que também aparecem no mercado brasileiro sobre inclusão financeira, acesso a investimentos e os efeitos da automação sobre renda e emprego.
“A enorme riqueza criada nas últimas gerações foi principalmente para pessoas que já possuíam ativos financeiros. A IA ameaça repetir esse comportamento em escala ainda maior”.
Fink também afirmou que o problema central está em quem participa dos ganhos gerados pela tecnologia. Segundo ele, quando o valor de mercado das empresas sobe, mas a propriedade desses ativos permanece concentrada, a prosperidade tende a parecer ainda mais distante para quem está fora desse ciclo de valorização.
Por que Larry Fink vê risco de concentração de riqueza com a IA?
O argumento do executivo está ligado à forma como o setor vem se desenvolvendo. Os avanços em inteligência artificial impulsionaram os mercados financeiros e desencadearam uma disputa entre grandes empresas de tecnologia, como Meta, Microsoft, Alphabet e Amazon, que buscam criar modelos próprios para competir com OpenAI e Anthropic.
Ao mesmo tempo, companhias do setor e grupos de investimento têm mobilizado volumes bilionários para ampliar infraestrutura e capacidade computacional. Nesse ambiente, Fink avalia que as empresas que já dispõem de dados, infraestrutura e capital estão em posição mais favorável para capturar os ganhos da nova onda tecnológica. Esse tipo de investimento envolve data centers, chips e energia em grande escala, uma infraestrutura que também entrou no radar de empresas e investidores em vários países.
“As empresas com dados, infraestrutura e capital para implementar IA em escala estão posicionadas para se beneficiar. Isso não é incomum, e nada disso é inerentemente problemático. A liderança de mercado sempre mudou com as transformações tecnológicas.”
Quais empresas e investimentos aparecem nesse movimento?
A reportagem cita que OpenAI e Anthropic planejam ofertas públicas iniciais de ações em busca de novas fontes de financiamento, após dependerem de rodadas de investimento privado com investidores institucionais. Também menciona a movimentação de grupos como Pimco, Apollo Global, Blackstone e Blue Owl no financiamento de construções de data centers.
A própria BlackRock também avançou nesse mercado. A gestora, que administra US$ 14 trilhões, firmou parceria com Microsoft, Nvidia e o fundo de Abu Dhabi MGX em projetos voltados à indústria de IA no valor de US$ 30 bilhões. Além disso, no ano passado, o fundo e a GIP, braço de infraestrutura da BlackRock, concluíram a aquisição de US$ 40 bilhões da Aligned Data Centers, empresa sediada no Texas.
- Meta, Microsoft, Alphabet e Amazon disputam espaço no desenvolvimento de IA;
- OpenAI e Anthropic buscam novas fontes de capital;
- Grupos de investimento financiam expansão de data centers;
- BlackRock participa de projetos bilionários ligados à infraestrutura do setor.
O que Fink defende para ampliar a participação nos ganhos da IA?
Na carta, o executivo afirmou ser necessário criar formas mais amplas e acessíveis para que indivíduos participem do crescimento futuro da inteligência artificial. Para ele, a tecnologia deverá criar valor econômico relevante, mas o desafio será fazer com que essa expansão seja acompanhada por maior participação social nos resultados.
“A IA criará valor econômico significativo. Garantir que a participação nesse crescimento se expanda junto com ele é tanto o desafio quanto a oportunidade”.
Além do tema da inteligência artificial, Fink também usou a carta para defender reformas no sistema de previdência social dos Estados Unidos. Segundo a reportagem, ele citou o risco de o sistema ter dificuldades para realizar pagamentos integrais a aposentados já em 2033 e sugeriu mudanças no fundo fiduciário da previdência.
“A Previdência Social é uma promessa fundamental, e as pessoas acreditam com razão que ela deve ser honrada. Mas, no sistema atual, não fazer nada pode muito bem quebrar essa promessa.”
Ao relacionar IA, mercado financeiro e acesso aos ganhos de capital, a manifestação de Fink insere o debate tecnológico em uma discussão mais ampla sobre distribuição de riqueza. O centro do alerta é que a expansão da inteligência artificial pode aprofundar um padrão já observado em ciclos anteriores de valorização, caso o acesso aos benefícios continue restrito aos agentes que já concentram ativos e capacidade de investimento. No Brasil, onde o tema da produtividade e da digitalização ganhou espaço entre empresas e formuladores de políticas públicas, o alerta ajuda a dimensionar um debate que vai além da tecnologia e alcança também desigualdade, mercado de capitais e acesso a oportunidades econômicas.



