A inteligência artificial (IA) corporativa enfrenta um paradoxo preocupante no mercado brasileiro e global: apesar da tecnologia avançada disponível, muitas empresas relatam frustração com projetos que não entregam o valor esperado. O problema central não está nos algoritmos, mas na arquitetura que sustenta sua aplicação, segundo análise publicada nesta semana de março de 2026 pelo especialista Marco Aleixo, CTO (diretor de tecnologia) da Mr Turing, empresa focada em IA.
Em artigo veiculado pelo portal especializado Mobile Time no dia 17 de março, o executivo compara essas soluções mal estruturadas ao personagem Frankenstein, da obra de Mary Shelley – sistemas montados com partes desconexas e sem harmonia, resultando em ferramentas pesadas, caras e de difícil manutenção.
Por que as grandes consultorias agravam o problema?
As grandes consultorias reforçam essa falha ao insistirem em construir soluções do zero dentro do cliente. Em vez de trazer módulos prontos e já validados para segurança, auditoria e operações, criam protótipos eternos que nunca amadurecem. Essa prática resulta em sistemas que exigem alto investimento inicial, mas não oferecem sustentabilidade.
Outro aspecto crítico é a governança distribuída. Muitas organizações acreditam que o problema da IA está na segurança, mas a dificuldade real é a falta de governança clara para dados, metadados e contextos. Sem uma arquitetura que organize fluxos de informação de forma auditável e escalável, qualquer projeto se torna vulnerável no longo prazo.
Como o mercado absorverá essa tecnologia nos próximos anos?
As projeções da consultoria de pesquisa Gartner indicam que, até o final de 2026, três em cada dez empresas vão automatizar mais da metade de suas atividades de rede. Isso significa uma presença ainda maior da IA nos processos corporativos, exigindo não apenas tecnologia, mas uma arquitetura robusta para suportar essa expansão.
Segundo Aleixo, o mercado ainda está aprendendo a absorver essa inovação. Atualmente, muitas empresas utilizam a IA apenas para reproduzir processos antigos, como escrever textos ou e-mails, sem explorar seu verdadeiro potencial disruptivo. Especialistas apontam que levará alguns anos até que surjam modelos de negócios realmente originais baseados nessa tecnologia.
Quais são os principais gargalos estruturais?
O consumo de energia já se apresenta como um gargalo significativo. Não é possível criar tecnologias que demandem dez vezes a capacidade elétrica disponível. Isso demonstra que a questão não é apenas tecnológica, mas infraestrutural e ambiental – é preciso pensar em arquiteturas que otimizem recursos e garantam eficiência sem comprometer a sustentabilidade.
A evolução da IA nos últimos 15 anos foi gigantesca. Ferramentas que antes analisavam apenas palavras isoladas hoje interpretam contextos complexos e geram respostas sofisticadas. No entanto, essa evolução possui limites físicos e energéticos dos próprios datacenters, que devem ser considerados no desenho da arquitetura dos sistemas.
Qual o papel da supervisão humana nesse contexto?
A supervisão humana continua indispensável no processo produtivo. A IA pode gerar códigos de programação, por exemplo, mas é o desenvolvedor quem avalia criticamente, ajusta e garante a segurança do projeto. A arquitetura corporativa precisa prever essa interação, integrando a tecnologia e a supervisão humana de forma natural.
O ciclo de vida do conhecimento corporativo se transformou em uma trilha contínua. Os dados entram, são processados, contextualizados e retornam em forma de percepções úteis (insights). Essa dinâmica exige uma arquitetura que trate o conhecimento da empresa como um ativo vivo e em constante fluxo, não como blocos isolados de informação.
O maior desafio para as companhias, portanto, não está em desenvolver algoritmos cada vez mais poderosos, mas em criar arquiteturas que permitam um funcionamento eficiente, seguro e sustentável. Como conclui o especialista da Mr Turing, não basta criar um projeto de IA robusto se ele não consegue se adaptar e atender, de fato, às necessidades reais da corporação.



