A campanha de bombardeios de Israel contra o Líbano, que em um dia matou ao menos 303 pessoas, não deve produzir os resultados militares pretendidos por Tel-Aviv contra o Hezbollah, segundo avaliação do oficial da reserva da Marinha brasileira Robinson Farinazzo. A análise foi publicada nesta sexta-feira (10), em Brasília, em reportagem da Agência Brasil, no contexto da retomada dos combates entre Israel e o grupo político-militar libanês.
De acordo com informações da Agência Brasil, Farinazzo afirmou que o Hezbollah mantém equipamentos dispersos e camuflados, o que dificultaria ataques capazes de neutralizar sua estrutura. Na avaliação do especialista, a ofensiva israelense teria mais efeito sobre a população civil libanesa do que sobre a capacidade militar do grupo.
“É difícil saber se eles estão conseguindo atingir as estruturas do Hezbollah. O Hezbollah camufla muito bem seus equipamentos, que são bastante espalhados. Eu acho que é mais uma campanha para impactar a população civil do Líbano”, avalia.
Israel conseguiria eliminar o Hezbollah?
Para Farinazzo, Israel não deve alcançar o objetivo de destruir o Hezbollah, embora esse seja um dos propósitos anunciados nas campanhas militares. Segundo ele, a liderança israelense teria consciência desse limite, mesmo com a intensificação das ações no território libanês.
“Israel não vai acabar com o Hezbollah e acho que eles sabem disso. Pode ser desespero do [Benjamin] Netanyahu [primeiro-ministro de Israel] porque ele sabe que o [Donald] Trump [presidente dos Estados Unidos] está numa situação difícil e pode ser retirado do conflito, mas ele não acha que essa campanha vai ter resultados militares”, disse.
O governo de Benjamin Netanyahu passou a ameaçar ocupar uma faixa do território libanês para criar uma zona tampão até o Rio Litani, localizado a cerca de 30 quilômetros da fronteira entre os dois países. Na avaliação do militar, Israel poderia até alcançar essa área, mas teria dificuldade para sustentar posições por muito tempo.
“O Exército de Israel está em uma situação bastante difícil com várias baixas. Chegar no Rio Litani, eu não duvido que consiga, o problema é ficar. Pode acontecer de atingirem a posição, mas depois a vida vira um inferno e começam a ter grandes baixas”, avalia.
O que disseram Hezbollah e Israel sobre a escalada?
Nesta sexta-feira (10), o secretário-geral do Hezbollah, Sheikh Naim Qassem, afirmou que os bombardeios em massa contra Beirute e o sul do Líbano decorrem, segundo ele, do fracasso de Israel em avançar por terra. Em declaração reproduzida no texto original, ele também ameaçou as forças israelenses mobilizadas para uma possível ocupação.
“A mobilização de 100 mil soldados israelenses não o ajudará a ocupar, mas se transformarão em corpos”, ameaçou o chefe do grupo xiita.
Segundo a reportagem, o Hezbollah afirma ter destruído mais de 100 tanques israelenses desde o dia 2 de março. Israel, por sua vez, exige o desarmamento do grupo xiita, criado durante a ocupação israelense do Líbano no fim da década de 1980. Já o Hezbollah condiciona o fim dos ataques à interrupção dos bombardeios e à saída definitiva de Israel do território libanês.
O texto informa ainda que, na terça-feira (7), Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo de cessar-fogo de duas semanas. No dia seguinte, Israel intensificou os ataques ao Líbano, movimento que levou o Irã a ameaçar abandonar as negociações com Washington. Com a violação do cessar-fogo, o Hezbollah retomou os ataques contra Israel.
Qual é a avaliação sobre o Estreito de Ormuz?
Farinazzo também comentou a situação no Estreito de Ormuz e afirmou que os Estados Unidos não teriam como reabrir a passagem apenas por meios militares, exceto com uso de uma bomba nuclear. Segundo ele, a configuração geográfica da área favorece ações contra embarcações e tornaria uma operação desse tipo extremamente difícil.
“Só com uma bomba nuclear. Se a Marinha tentar entrar ali, ou eles vão minar aquilo, ou vão atingir os navios com mísseis de cruzeiro. É virtualmente impossível, com os meios que estão reunidos ali no Golfo Pérsico, os EUA reabrirem aquele trecho”, disse.
Na sequência, o especialista afirmou que o estreitamento da passagem facilitaria atingir alvos militares e citou episódios no Mar Vermelho para sustentar sua avaliação. Para ele, o caminho menos danoso seria a negociação diplomática, e nem mesmo uma eventual entrada da Otan no conflito alteraria de forma decisiva esse cenário.
“Vários navios americanos já foram atingidos no Mar Vermelho, mesmo eles não admitindo isso. No [Estreito de] Ormuz seria pior ainda. E por isso que o Trump está desesperado”.
“Agora, se Trump insistir nisso, vai acabar afundando os Estados Unidos porque o Irã está disposto a ir para o tudo ou nada”.
Os principais pontos apresentados na análise publicada pela Agência Brasil incluem:
- a ofensiva israelense não seria suficiente para destruir o Hezbollah;
- uma ocupação até o Rio Litani poderia ser alcançada, mas seria difícil de manter;
- a retomada dos ataques ocorreu após a violação do cessar-fogo anunciado por Estados Unidos e Irã;
- o Estreito de Ormuz, na avaliação do especialista, não poderia ser reaberto por meios exclusivamente militares.