Um grupo de amigas mantém há três décadas o ritual de se encontrar em um poço d’água natural no norte de Nova Gales do Sul, na Austrália — estado da costa leste do país —, um lugar que, assim como elas, foi transformado por enchentes, secas e pela passagem do tempo, mas permanece como refúgio emocional e físico. A escritora Jessie Cole relata essa tradição em artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian em 29 de março de 2026, descrevendo como o encontro anual com sua melhor amiga e antigos colegas de juventude se tornou um símbolo de resiliência e conexão humana diante das adversidades da vida.
De acordo com informações do Guardian Environment, o poço d’água fica escondido em propriedade privada, acessível apenas com orientações específicas, cercado por mata densa e longe da vista da estrada. O local, descrito como pequeno, redondo, sombreado e misterioso, contrasta com outro poço d’água mais amplo pertencente à família da melhor amiga de Cole — este com margem de seixos, corda de balanço e escadaria de concreto. No Brasil, ambientes naturais de banho em rios e poços também fazem parte da memória afetiva de muitas comunidades, o que ajuda a aproximar o relato do leitor brasileiro.
Como o poço d’água se transformou ao longo dos anos?
O sistema de riachos da região é dinâmico: enchentes frequentes redesenham os poços d’água a cada estação. Apesar das mudanças físicas — profundidade alterada, novas correntezas, sedimentos deslocados —, o significado emocional do local permanece intacto. As amigas, agora adultas, com cicatrizes visíveis e invisíveis, continuam mergulhando juntas, repetindo gestos da juventude: flutuar em câmaras de pneus de trator, pular da corda ou simplesmente boiar em silêncio.
O encontro, que antes incluía crianças barulhentas e um border collie saltando para a água por Fomo (sigla em inglês para “medo de ficar de fora”), hoje reúne adultos que enfrentaram perdas, nascimentos, distâncias geográficas e crises pessoais. Mesmo com a amiga mais próxima vivendo em outro estado australiano, o grupo segue se reunindo regularmente, transformando a visita em um “retorno para casa” coletivo.
Por que esse ritual importa tanto?
Na água, as preocupações “desprendem-se e fluem rio abaixo”, escreve Cole. O ato de nadar lado a lado, sem maquiagem, com os cabelos colados ao rosto, revela uma intimidade rara: corpos envelhecidos, marcas do tempo, mas também sorrisos abertos e olhos que, às vezes, se enchem de lágrimas. “Ravaged by time but still shining” (“devastadas pelo tempo, mas ainda brilhantes”) — a frase resume a essência do encontro.
O poço d’água funciona como um espaço ancestral de congregação humana, evocando práticas milenares de comunidades que se reúnem em fontes naturais. Ali, o tempo parece parar: libélulas pairam, lagartos correm, pássaros cantam. E, por alguns momentos, as amigas recuperam uma leveza quase esquecida.
