O conflito militar envolvendo os Estados Unidos e o Irã desencadeou uma severa crise energética global que ameaça reverter décadas de avanços ambientais. Diante da inflação crescente e do bloqueio de rotas essenciais de suprimento, diversas nações da Ásia e da Europa estão abandonando as suas metas climáticas de longo prazo para voltar a depender do carvão mineral, buscando assim garantir a própria segurança nacional. No Brasil, embora a matriz elétrica seja predominantemente renovável e baseada em hidrelétricas, a crise inflacionária global e a volatilidade dos combustíveis fósseis impactam diretamente os custos logísticos e os preços internos.
De acordo com informações do Guardian Environment, a gestão do presidente Donald Trump aposta fortemente na expansão acelerada dos combustíveis fósseis em território interno. A estratégia econômica atual repete de forma notável a resposta governamental dada durante a histórica crise de escassez do final da década de 1970.
Como a história da política energética americana se repete em 2026?
Com o fantasma da estagflação voltando a assombrar a economia global neste início de abril de 2026, o cenário reflete desafios profundos do passado. No ano de 1977, durante um inverno rigoroso e com o petróleo beirando a marca de 14 dólares o barril, o então presidente Jimmy Carter pediu publicamente aos cidadãos que reduzissem o aquecimento de suas casas para economizar recursos.
Embora Carter seja frequentemente lembrado por incentivar as pesquisas em energia solar, o seu maior legado prático e imediato foi o desenvolvimento massivo do carvão mineral. O recurso chegou a ser batizado pelo primeiro secretário de Energia do país, James Schlesinger, como a grande esperança negra da nação.
Por que a transição para as energias renováveis está travada?
Em teoria, o cenário de guerra no início de 2026 deveria acelerar a adoção da energia solar e da matriz eólica, uma vez que são opções imunes aos gargalos comerciais do Estreito de Ormuz. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, defendeu recentemente essa necessária independência produtiva.
“Se assumíssemos o controle da nossa energia e tivéssemos energias renováveis nacionais, poderíamos estabilizar as suas contas.”
Contudo, a prática revela obstáculos geopolíticos severos. As turbinas eólicas e as baterias modernas dependem de minerais críticos fornecidos esmagadoramente pela China, que já demonstrou capacidade de usar esse monopólio como arma. Para o Brasil, essa dependência global abre uma janela de oportunidade, já que o país possui vastas reservas de minerais essenciais para a transição energética, como o lítio e o nióbio. Além disso, a instabilidade global elevou drasticamente as taxas de juros, tornando o capital para novos projetos verdes extremamente caro e inacessível.
Quais países estão retomando massivamente o uso do carvão?
A facilidade de extração e o baixo custo imediato do carvão impulsionam o seu consumo, que saltou em cerca de 1,3 bilhão de toneladas desde o ano de 2020, atingindo 8,8 bilhões no total. Os principais fatores que contribuem diretamente para essa alta expressiva incluem:
- O bloqueio de 20% do fornecimento de gás natural devido à alta tensão militar no Estreito de Ormuz.
- A demanda estrutural e contínua por eletricidade barata em países emergentes como Índia e China.
- Os reflexos duradouros da invasão russa à Ucrânia no delicado fornecimento de todo o continente europeu.
Na região da Ásia, nações como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e a Tailândia estudam ou já iniciaram a retomada oficial de usinas a carvão. O cenário se repete de forma alarmante na Europa, o continente que era considerado o mais engajado na descarbonização. A Itália anunciou o adiamento do fechamento de suas térmicas por mais 13 anos, enquanto a Alemanha avalia religar instalações que já estavam completamente desativadas. No cenário nacional brasileiro, o uso do carvão mineral permanece concentrado na região Sul, em estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, representando uma parcela minoritária da geração elétrica.
O que o futuro reserva para as metas globais de descarbonização?
A guinada emergencial tem o potencial drástico de destruir o progresso ambiental arduamente alcançado nas cúpulas do Rio de Janeiro, de Kyoto e de Paris. Em apenas duas décadas, a participação do combustível mais sujo do mundo na matriz energética global subiu de 23% no ano 2000 para a marca de 28% em 2023.
Nos Estados Unidos, o carvão satisfaz em abril de 2026 apenas nove por cento de toda a demanda energética, um número ligeiramente inferior ao registrado pelas fontes renováveis. No entanto, com a política governamental acelerando a extração de combustíveis fósseis como resposta primária às pressões econômicas latentes, a meta verde torna-se cada vez mais distante.
A crise brutal desencadeada pela guerra comprova que, quando a segurança energética imediata de uma nação é ameaçada pelos conflitos geopolíticos, a proteção ambiental acaba sendo sumariamente relegada ao segundo plano pelos líderes mundiais.
