A proposta de construção da Ferrovia Bioceânica para ligar as costas do Pacífico e do Atlântico na América do Sul voltou ao centro do debate após avanços institucionais em 2025 e 2026, mas especialistas alertam para impactos sociais e ambientais nas rotas em estudo entre Peru e Brasil, especialmente sobre territórios indígenas e áreas sensíveis da Amazônia peruana. De acordo com informações da Mongabay Global, embora autoridades afirmem que ainda não existe uma rota definitiva, todas as alternativas consideradas atravessam regiões ambientalmente vulneráveis, como Ucayali e Madre de Dios.
O projeto ganhou novo impulso depois da inauguração do megaprojeto portuário de Chancay, no Peru. Para completar o corredor ferroviário, a linha precisaria cruzar a Cordilheira dos Andes e também áreas da Floresta Amazônica em território peruano e brasileiro. Em julho de 2025, Brasil e China assinaram um acordo de cooperação para estudos de viabilidade do corredor ferroviário. Já em agosto daquele ano, o Ministério dos Transportes e Comunicações do Peru apresentou o plano ao Congresso do país.
Quais são as rotas em discussão para a ferrovia bioceânica?
Segundo a reportagem, há pelo menos duas possibilidades principais para a travessia entre o Peru e o Brasil. Uma delas passaria pela região de Madre de Dios, no sul da Amazônia peruana, conectando-se a Assis Brasil, no estado do Acre, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia. Depois, a ferrovia seguiria por regiões andinas peruanas até se ligar a Chancay.
A outra rota cruzaria a Amazônia peruana mais ao norte, pela região de Ucayali, saindo em direção ao território brasileiro após passar por Pucallpa. Essa alternativa já havia sido discutida em 2014, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff, quando a ideia de uma ligação ferroviária entre os dois países foi apresentada.
Embora o trecho Chancay-Sierra Central tenha sido anunciado em janeiro de 2026 e, segundo a reportagem, atribuído a uma empresa chinesa, o percurso que seguiria até o Brasil ainda não foi confirmado. Essa indefinição, porém, não reduziu a preocupação de pesquisadores e organizações que estudam os efeitos de grandes obras de infraestrutura na região amazônica.
Por que especialistas apontam riscos para a Amazônia e para povos indígenas?
Um estudo citado na reportagem, elaborado por CooperAcción e GRAIN, identificou áreas potencialmente afetadas pela ferrovia e por obras associadas. Entre elas estão 15 áreas naturais protegidas, como o Parque Nacional Manu, a Reserva Comunal Amarakaeri, a Reserva Nacional Tambopata e o Parque Nacional Bahuaja Sonene. O levantamento também apontou risco para nove áreas regionais de conservação, 69 áreas privadas de conservação, 1.793 comunidades camponesas e 19 comunidades indígenas.
A matéria também afirma que a Reserva Territorial Madre de Dios, onde vivem povos indígenas em isolamento e contato inicial, pode ser afetada. Para especialistas ouvidos pela Mongabay, o impacto de um projeto desse porte não se limita à faixa física da ferrovia, mas se estende à chamada área de influência, com efeitos sobre ocupação do território, circulação econômica e pressão sobre ecossistemas preservados.
“O que nos preocupa é o impacto que a obra terá sobre a Amazônia”, disse José De Echave à Mongabay.
José De Echave, pesquisador da organização peruana CooperAcción, afirmou ainda que megaprojetos de infraestrutura em regiões amazônicas pressionadas por atividades extrativas legais e ilegais podem acabar favorecendo operadores clandestinos. Ele citou como exemplo a Rodovia Interoceânica Sul, cuja implantação é apontada por especialistas como um dos fatores que abriram caminho para a expansão da mineração ilegal e do crime organizado em áreas como La Pampa, em Madre de Dios.
Que impactos indiretos são mencionados na reportagem?
Pedro Tipula, geógrafo e coordenador do sistema SICCAM, do Instituto del Bien Común, disse conhecer os efeitos potenciais de obras desse tipo sobre Ucayali. Segundo ele, análises de traçados anteriores já indicavam possibilidade de impacto sobre áreas protegidas, territórios de comunidades nativas e terras de povos indígenas em isolamento e contato inicial.
“Sabemos o impacto que uma estrada teve em outras áreas da Amazônia”, afirmou Tipula à Mongabay.
Tipula mencionou, entre os locais potencialmente afetados, a Reserva Indígena Isconahua, o Parque Nacional Sierra del Divisor e a rede hidrológica do Abujao. A avaliação dele é que empreendimentos de infraestrutura em áreas ainda não desenvolvidas geram efeitos que vão além da obra em si, estimulando novos assentamentos, circulação de mercadorias e outras transformações territoriais.
Raquel Neyra, pesquisadora de conflitos socioambientais, violência e colonialidade no Instituto Peruano de Natureza, Terra e Energia da PUCP, também alertou para danos ambientais de grande escala caso uma ferrovia seja construída no interior da Amazônia. Segundo a reportagem, ela afirmou que o impacto não se limitaria ao traçado dos trilhos, mas incluiria o desenvolvimento paralelo de cidades, assentamentos, comércio e rotas para escoamento mineral.
- As rotas em estudo atravessam Ucayali ou Madre de Dios.
- Áreas protegidas e territórios indígenas estão entre os locais potencialmente afetados.
- Especialistas apontam risco de expansão de mineração ilegal e tráfico de drogas.
- Não há, até o momento, uma rota definitiva confirmada pelas autoridades.