A FEMA, agência responsável pela coordenação da resposta federal a desastres nos Estados Unidos, não participou da Conferência Nacional de Furacões, iniciada em 30 de março de 2026 em Orlando, na Flórida, por causa da paralisação parcial do governo que atinge o Departamento de Segurança Interna (DHS), ao qual a agência está vinculada. O encontro é um dos maiores do país voltados à preparação para a temporada de furacões no Atlântico, que começa em 1º de junho. A conferência reúne gestores estaduais e locais de emergência, representantes de órgãos federais, organizações sem fins lucrativos e empresas. Na Flórida, onde vive uma numerosa comunidade brasileira, a preparação para furacões também afeta residentes estrangeiros que dependem de alertas, abrigos e planos locais de evacuação.
De acordo com informações da Inside Climate News, representantes da FEMA atribuíram a ausência ao impasse orçamentário em Washington. Em nota enviada ao veículo, a agência afirmou que, devido à interrupção de financiamento, não poderia participar dos treinamentos da conferência e lamentou o impacto da paralisação sobre sua capacidade de apoiar comunidades.
“Devido à atual interrupção de financiamento, a FEMA não pode participar dos treinamentos da Conferência Nacional de Furacões”, diz a nota enviada à Inside Climate News. “Esses treinamentos e colaborações são vitais para a preparação, e a FEMA lamenta não poder participar como fez em anos anteriores. Essa paralisação afeta diretamente nossa capacidade de apoiar as comunidades quando isso mais importa.”
Por que a ausência da FEMA chamou atenção no evento?
A conferência é considerada um espaço central para o planejamento da resposta à temporada de furacões. Mais de 1.800 gestores locais e estaduais de emergência se inscreveram para participar, além de representantes de outras agências federais, entidades como o Exército da Salvação e empresas como Publix e Home Depot. O evento termina em 2 de abril de 2026.
A ausência ocorre em um momento de instabilidade dentro da própria FEMA. A agência tem enfrentado mudanças de comando e debate sobre seu futuro desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, que defendeu mudanças profundas no órgão e maior participação dos estados na resposta a desastres.
Segundo a reportagem, Cameron Hamilton deixou o comando interino da FEMA em maio, depois de afirmar ao Congresso que a agência não deveria ser eliminada. Seu sucessor, David Richardson, renunciou meses depois, em meio a críticas de republicanos e democratas sobre a resposta às enchentes fatais de 4 de julho na região de Texas Hill Country. Em 1º de dezembro, Karen Evans assumiu como administradora interina.
O que acontece com o relatório sobre reformas na agência?
Outro efeito da paralisação parcial do governo é o atraso no relatório do Conselho de Revisão da FEMA, grupo criado para avaliar possíveis reformas na agência. Kevin Guthrie, diretor da Divisão de Gestão de Emergências da Flórida e integrante do conselho, disse durante uma coletiva no evento que o documento segue suspenso por causa da paralisação.
“No fim das contas, estamos em um ponto natural de transição para a próxima evolução da gestão de emergências”, disse. “Por mais que tenhamos problemas, ainda somos o melhor programa de gestão de emergências do mundo.”
Guthrie também afirmou que a ausência da FEMA abre espaço para maior protagonismo de governos estaduais e locais. Segundo ele, a conferência continua funcionando apesar da falta da agência federal.
“A ausência deles aqui não inviabiliza a conferência”, disse. “O presidente certamente pediu que estados e governos locais façam mais.”
Quais temas foram debatidos na conferência?
Mesmo sem a presença da FEMA, os participantes acompanharam apresentações sobre comunicação de previsões meteorológicas, processos de reconstrução e impactos de mudanças na política federal sobre outros órgãos envolvidos em resposta a desastres. Michael Brennan, diretor do Centro Nacional de Furacões, sediado em Miami, falou sobre novas formas de comunicar previsões para melhorar a resposta às tempestades.
Também houve sessões sobre os nove anos de recuperação de Porto Rico após o furacão Maria e sobre a reconstrução da Jamaica depois da passagem do furacão Melissa no ano passado. Outra discussão tratou de como mudanças na política federal podem afetar agências que atuam na resposta a desastres.
Qual foi o alerta para a próxima temporada de furacões?
Brennan manifestou preocupação com a possibilidade de parte da população demorar mais para se preparar neste ano, depois de uma temporada anterior relativamente branda para o território continental dos Estados Unidos. Segundo ele, foi o primeiro ano em uma década sem furacão atingindo o país diretamente. A única tempestade nomeada que ameaçou áreas em terra foi Chantal, que chegou perto de Litchfield Beach, na Carolina do Sul, em 6 de julho, como tempestade tropical, provocando menos de US$ 500 milhões em danos.
“Na prática, não importa o que diga qualquer previsão sazonal”, afirmou a jornalistas durante a coletiva. “É preciso estar preparado como se você fosse ser afetado todos os anos, porque esse risco existe.”
Jeremy Knighton, subchefe do corpo de bombeiros para gestão de emergências em Asheville, na Carolina do Norte, avaliou que a ausência da FEMA representou uma perda para o encontro. Para ele, a incerteza sobre o papel da agência amplia a complexidade de eventos que já são difíceis de administrar.
“Sempre vai haver algum nível de incerteza”, disse. “Mas a incerteza em torno da FEMA só aumenta a complexidade de um evento que já é complexo.”