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Estiagem e El Niño elevam alerta sobre consumo de água na indústria brasileira

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Foto de um reservatório de água com nível baixo, mostrando solo rachado e seco ao redor de uma represa sob sol forte.
Foto: Amio Cajander. / flickr (by)

A possibilidade de confirmação do El Niño no segundo semestre de 2026 recolocou em evidência o consumo de água na indústria brasileira, especialmente entre empresas de pequeno e médio porte mais expostas a cenários de restrição hídrica.

O debate envolve monitoramento de processos, redução de desperdícios, revisão operacional e uso de fontes alternativas, como o reúso. De acordo com informações do Valor Empresas, o alerta sobre o fenômeno vem sendo feito por centros internacionais de meteorologia, como a NOAA, agência do governo dos Estados Unidos. No Brasil, episódios de estiagem afetam diretamente a operação industrial ao pressionarem o abastecimento e elevarem o risco de restrições em regiões dependentes de mananciais locais.

Segundo José Carlos Mierzwa, professor titular e pesquisador do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP, a água ainda costuma ser tratada como insumo secundário em muitas operações industriais. Para ele, a percepção histórica de abundância do recurso contribuiu para a falta de atenção ao tema, o que hoje amplia riscos de desperdício e de interrupção da produção em períodos de escassez.

Por que a estiagem e o El Niño preocupam mais as indústrias menores?

Mierzwa afirma que empresas de menor porte tendem a enfrentar maior vulnerabilidade quando há restrição na oferta de água. Isso ocorre porque, na maior parte dos casos, essas companhias operam com apenas uma planta industrial e têm menos margem para remanejar produção. Já grupos maiores podem contar com sistemas redundantes e mais flexibilidade operacional para responder a uma eventual crise hídrica.

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As pesquisas conduzidas na Politécnica da USP indicam que parte relevante do desperdício ocorre por falhas de monitoramento e pela negligência com operações secundárias. Embora os processos principais concentrem a atenção da gestão industrial, atividades como higienização de maquinário e rotinas auxiliares podem consumir volumes expressivos de água sem controle adequado.

“Na maioria dos casos, principalmente nas indústrias, a água é tratada de forma secundária, como um insumo. No passado, havia o conceito de que era um recurso bastante abundante, ninguém dava a devida importância”, diz José Carlos Mierzwa.

Como a indústria pode começar a reduzir desperdícios de água?

De acordo com o pesquisador, o primeiro passo é identificar perdas evidentes e rotinas negligenciadas. Desde a primeira década dos anos 2000, a Politécnica da USP desenvolve com a CNI, a Confederação Nacional da Indústria, publicações sobre conservação e reúso de água em operações industriais, com orientações práticas para o setor.

Entre as medidas citadas no material estão:

  • identificação de vazamentos em tubulações e reservatórios;
  • correção de falhas simples, como torneiras mal fechadas;
  • programas de treinamento e conscientização das equipes;
  • revisão periódica dos processos industriais que usam água;
  • avaliação constante das condições operacionais dos equipamentos;
  • investimentos em automação para aumentar a resiliência hídrica.

Mierzwa relata que revisões sistemáticas podem produzir reduções expressivas no consumo. Em estudos mencionados por ele, a queda ficou entre 50% e 60% do volume consumido anteriormente, resultado obtido a partir de melhorias de processo e maior controle operacional.

“Geralmente, os processos na indústria são desenvolvidos pensando nas operações principais. Enquanto as secundárias, que utilizam mais água, são quase sempre negligenciadas”, afirma.

Quando o reúso de água passa a ser uma alternativa viável?

O pesquisador observa que fontes alternativas, como sistemas de reúso, só se mostram efetivas quando a empresa já reavaliou seu padrão de consumo. Em alguns casos, mesmo após reestruturação de processos, a operação continua sem água suficiente para manter ou ampliar a produção, o que torna o reúso uma opção de resiliência hídrica.

Ele cita o caso de uma empresa do setor de abate de aves acompanhada por meio de convênio com a USP. Segundo Mierzwa, o consumo era de 16 litros de água por ave abatida, e a operação não conseguia funcionar durante toda a semana por insuficiência hídrica. Após estudo e ajuste de processos, o consumo caiu para 12 litros por ave, mas ainda assim a empresa precisava de mais água, o que manteve o reúso no radar.

“Já fizemos estudos em que conseguimos reduzir o consumo de água na faixa de 50% a 60% do volume consumido anteriormente”, diz.

“Fizemos um estudo e reduzimos o consumo deles para 12 litros por ave abatida, somente com melhoria de processos. Mas eles realmente precisavam de mais água, então o reúso era uma opção viável”, conta o pesquisador.

Qual exemplo de fornecimento de água de reúso já opera em São Paulo?

O texto cita a Aquapolo Ambiental, que fornece água de reúso desde 2012 por meio de parceria público-privada entre a Sabesp e o grupo GS Inima Industrial. Segundo Marcio José, diretor-presidente da empresa, a capacidade é de um metro cúbico por segundo, equivalente a mil litros por segundo.

Com faturamento anual em torno de R$ 160 milhões, a Aquapolo atende o Polo Petroquímico de Capuava, na região metropolitana de São Paulo, além de indústrias do ABC Paulista. O fornecimento ocorre por adutora própria conectada a uma estação da Sabesp, responsável pelo tratamento de esgoto primário e secundário. Depois disso, a Aquapolo realiza o tratamento terciário para transformar o material em água de reúso apta ao uso industrial.

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