
A primeira semana de abril de 2026 trouxe contrastes profundos para o cenário ambiental e energético global, revelando um crescimento histórico das fontes de energia limpa ofuscado por novos retrocessos políticos na gestão de combustíveis fósseis. Enquanto a capacidade mundial de energia renovável atingiu níveis sem precedentes no último ano, decisões controversas adotadas pelos governos dos Estados Unidos e da Itália apontam para uma retomada nas atividades de perfuração de petróleo e no uso de carvão mineral, medidas impulsionadas pelas recentes crises internacionais de segurança.
De acordo com informações do Earth.Org, novos dados estatísticos revelam que as fontes sustentáveis já representavam quase metade de toda a capacidade global de energia elétrica instalada até o final de 2025. A Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) registrou o maior aumento anual da história no setor elétrico, confirmando uma aceleração estrutural na transição energética global. Esse cenário dialoga diretamente com a realidade do Brasil, cuja matriz elétrica já se destaca como uma das mais limpas do mundo, possuindo mais de 80% de participação de fontes renováveis — impulsionada historicamente por hidrelétricas e, mais recentemente, pelas fontes eólica e solar.
Como o crescimento das energias renováveis impactou o cenário global em 2025?
O relatório oficial da agência, publicado na quarta-feira (1º de abril), apontou um crescimento de 15,5% em apenas um ano civil. Em números absolutos, isso representa a expressiva adição de 692 gigawatts de capacidade renovável ao redor do planeta. Dessa forma, as matrizes limpas fecharam o ano correspondendo a 49% da capacidade instalada mundial e foram responsáveis por 85,6% de toda a nova energia adicionada às redes globais em 2025.
A tecnologia fotovoltaica foi a principal impulsionadora desse salto estatístico. Sozinha, a energia solar respondeu por quase três quartos de todas as adições sustentáveis, o que configurou um recorde de 510 gigawatts adicionados globalmente. O setor de energia eólica ocupou a segunda posição nesse avanço estrutural, agregando 159 gigawatts no mesmo período analisado.
O diretor-geral da instituição internacional, Francesco La Camera, detalhou que a sequência de quebras de recordes anuais registrada quase ininterruptamente desde a virada do milênio ocorre graças a atributos mercadológicos fundamentais. Segundo a liderança da agência, o crescimento é reflexo da “competitividade e resiliência” destas tecnologias de geração de energia.
Quais decisões do governo dos Estados Unidos afetam a proteção ambiental?
Paralelamente aos avanços limpos, um painel estratégico composto por autoridades da Administração Trump aprovou na terça-feira (31 de março) uma ampla isenção das diretrizes impostas pela Lei de Espécies Ameaçadas. A ação tem o objetivo de viabilizar a expansão de atividades de exploração e desenvolvimento de petróleo e gás no Golfo do México. A solicitação oficial havia partido do Pentágono no mês anterior, que demandou ao Secretário do Interior, Doug Burgum, a convocação do comitê com base em alegadas justificativas de segurança nacional.
O comitê colegiado que validou a isenção, popularmente conhecido no meio político de Washington como “esquadrão de Deus” devido ao seu poder de deliberação sobre a sobrevivência de espécies vulneráveis, aprovou o pedido após uma reunião a portas fechadas de apenas 20 minutos. Desde a criação deste grupo pelo Congresso americano em 1978, as autoridades que o compõem haviam se reunido somente três vezes, sendo o último encontro datado de 1992. Vale ressaltar que a legislação ambiental em pauta, ativa desde 1973, evitou historicamente a extinção de 99% da fauna e flora listadas sob sua proteção.
Por que a Agência de Proteção Ambiental americana está sendo processada?
No âmbito das emissões industriais, uma coalizão formal de organizações ambientais e de proteção à saúde protocolou uma ação judicial contra a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). O litígio se opõe diretamente à recente revogação, concluída em fevereiro, de regulamentos federais que controlavam o despejo de mercúrio, chumbo e outros poluentes atmosféricos gerados por usinas termoelétricas alimentadas a carvão.
A revogação conduzida pela agência governamental anulou as emendas de proteção estipuladas durante o mandato de Joe Biden aos Padrões de Mercúrio e Tóxicos do Ar. Os grupos de advocacia civil argumentam que essa desregulamentação autoriza as usinas a carvão a poluir o meio ambiente com volumes superiores de metais pesados conhecidos por causar danos severos ao desenvolvimento cerebral, incluindo também níquel e arsênico. A medida ainda dispensou a exigência de sistemas internos para monitoramento quantitativo das emissões pelas termoelétricas.
Entre os resultados positivos entregues pelas regulamentações que vigoravam desde 2012 e que haviam sido atualizadas em 2024, a coalizão listou os seguintes dados à Justiça americana:
- Queda contínua de 90% na poluição por mercúrio proveniente do setor energético.
- Redução científica nos fatores de risco para doenças cardíacas e complicações pulmonares na população.
- Atenuação significativa dos índices de mortes prematuras e manifestação de diferentes tipos de câncer.
- Adaptação estrutural concluída, com 93% da capacidade carvoeira do país já enquadrada dentro das antigas normas de controle.
De que forma a crise internacional alterou a matriz energética da Itália?
No continente europeu, as consequências geopolíticas ditaram mudanças radicais na política ambiental da Itália. A Câmara dos Deputados italiana votou e aprovou o adiamento do desligamento de todas as usinas termoelétricas a carvão do país. Originalmente estipulado para ocorrer até dezembro de 2025, de acordo com o Plano Nacional de Energia e Clima visando as metas da União Europeia, o fechamento final das plantas foi postergado em 13 anos.