A regulação da energia nuclear nos Estados Unidos passa por mudanças profundas sob o governo de Donald Trump, segundo reportagem publicada por Grist e originalmente produzida pela ProPublica. O texto relata que, no verão de 2025 no Hemisfério Norte, autoridades do Departamento de Energia se reuniram no Idaho National Laboratory para discutir o futuro do setor nuclear no contexto político do governo Trump, em meio a críticas sobre a redução do peso de preocupações com saúde e segurança e ao avanço de grupos ligados ao Vale do Silício sobre decisões regulatórias. De acordo com informações da Grist, a mudança é impulsionada pela intenção de ampliar a oferta de energia para atender à demanda da inteligência artificial.
A reportagem afirma que especialistas de carreira foram afastados, milhares de páginas de normas estão sendo reescritas com rapidez e empresas de nova geração do setor nuclear, apoiadas por capital do Vale do Silício e conexões políticas, ganharam influência crescente sobre a formulação de políticas públicas. O foco das críticas recai sobre a Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos, a NRC, descrita no texto como uma referência internacional em segurança para usinas nucleares comerciais. Para o leitor brasileiro, o debate importa porque padrões regulatórios e decisões de grandes potências nucleares costumam influenciar discussões internacionais sobre segurança atômica, tema acompanhado no Brasil por órgãos como a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Como a reunião em Idaho exemplifica essa mudança?
Segundo a reportagem, a reunião no laboratório de Idaho foi conduzida por Seth Cohen, advogado de 31 anos que ingressou no governo pela equipe do Departamento de Eficiência Governamental associada a Elon Musk. O texto diz que Cohen tinha pouca experiência relevante em direito ou política nuclear e liderou uma conversa técnica sobre licenciamento de reatores minimizando preocupações sobre saúde e segurança.
De acordo com registros analisados pela ProPublica, quando servidores mencionaram exposição à radiação em áreas de testes, Cohen interrompeu a discussão e fez um comentário sobre a população local. O texto também descreve reações de outros participantes, que citaram bebês, gestantes e outros grupos considerados mais vulneráveis à exposição à radiação de baixa intensidade.
“Eles estão fazendo testes em Utah. … Não sei, tipo, 70 pessoas vivem lá”, disse ele.
“Mas … há muitos bebês”, retrucou um servidor.
Qual é a principal crítica à atuação do governo Trump nesse tema?
A principal preocupação apresentada pela reportagem é a suposta perda de independência da NRC. O texto afirma que o governo Trump foi especialmente agressivo contra o órgão regulador, inclusive com a demissão do comissário Christopher Hanson em junho de 2025, após ele defender a importância da autonomia institucional. Segundo a matéria, foi a primeira vez que um comissário da NRC foi demitido.
Na mesma reunião em Idaho, ainda conforme os documentos revisados pela ProPublica, Cohen teria descartado a ideia de independência do regulador naquele cenário político. Em novembro de 2025, ele foi nomeado conselheiro-chefe para política nuclear no Departamento de Energia, passando a supervisionar um amplo portfólio da área.
“Parta do princípio de que a NRC vai fazer tudo o que dissermos para a NRC fazer”, disse ele, segundo registros revisados pela ProPublica.
Para ex-dirigentes e especialistas ouvidos pela reportagem, esse ambiente representa risco à cultura de segurança construída ao longo de décadas no setor nuclear dos Estados Unidos, país que não registra um incidente nuclear grave desde o acidente parcial em Three Mile Island, em 1979. Como os Estados Unidos têm um dos maiores parques nucleares do mundo, mudanças em seu regulador também são observadas internacionalmente por seus possíveis efeitos sobre referências técnicas e de governança no setor.
O que os dados sobre a agência reguladora indicam?
Uma análise da ProPublica com base em dados de pessoal da NRC e do Office of Personnel Management aponta um esvaziamento relevante da agência. Segundo o texto, mais de 400 pessoas deixaram o órgão desde a posse de Trump. As perdas foram mais intensas em equipes responsáveis pela segurança de reatores e materiais nucleares, além de servidores experientes, com dez anos ou mais de atuação.
A reportagem também informa que a reposição de quadros ocorre em ritmo lento. Nos números citados, quase 60 novos profissionais ingressaram no primeiro ano do governo Trump, ante quase 350 no último ano da gestão Biden.
- Mais de 400 saídas da NRC desde a posse de Trump, segundo a reportagem
- Perdas concentradas em áreas de segurança nuclear
- Redução de servidores com dez anos ou mais de experiência
- Quase 60 contratações no primeiro ano do governo Trump
- Quase 350 admissões no último ano do governo Biden
Há divergências sobre os efeitos dessas mudanças?
Sim. A reportagem mostra que parte dos defensores da energia nuclear considera que o governo está imprimindo a urgência necessária diante do aumento da demanda energética associada à inteligência artificial. Um dos entrevistados afirma que a NRC estaria excessivamente lenta e que o momento seria oportuno para acelerar processos.
Ao mesmo tempo, ex-autoridades e especialistas alertam que a aproximação excessiva entre indústria, investidores e reguladores pode comprometer avaliações de segurança. O texto menciona os desastres de Fukushima e Chernobyl como referências históricas frequentemente lembradas por críticos de modelos regulatórios fragilizados.
A Casa Branca encaminhou a maior parte dos questionamentos da ProPublica ao Departamento de Energia. Segundo a reportagem, a porta-voz Olivia Tinari afirmou que a pasta está comprometida em apoiar a construção de instalações nucleares seguras e de alta qualidade. Cohen não respondeu aos pedidos de comentário, e a NRC se recusou a comentar.
