
O avanço da energia limpa no Texas, que vinha atraindo bilhões de dólares e prometendo reforçar receitas em condados rurais, passou a enfrentar incertezas após a mudança do cenário político nos Estados Unidos, em meio ao recuo de políticas federais de incentivo observado em 2025 e 2026. A reportagem acompanha o caso do pecuarista Duff Hallman, dono de um rancho ao sul de San Angelo, e mostra como projetos eólicos e solares ganharam espaço no oeste texano desde 2007, impulsionados por créditos tributários federais que agora estão sob pressão. De acordo com informações da Grist, a reversão ameaça investimentos, receitas locais e a expansão do setor. Para o leitor brasileiro, o tema ajuda a ilustrar como mudanças regulatórias e de incentivos podem afetar a transição energética e a previsibilidade de investimentos, um debate que também envolve fontes renováveis no Brasil.
Produzida pela Grist e publicada em parceria com o The Texas Observer, a reportagem relata como áreas tradicionalmente ligadas ao petróleo e ao gás passaram, nas últimas duas décadas, a abrigar também parques eólicos e solares. Em condados com arrecadação fragilizada pela queda de atividades antigas, essas novas instalações passaram a ser vistas como fonte de estabilidade fiscal, especialmente para escolas, hospitais e serviços públicos.
Como a energia eólica passou a fazer parte da vida no rancho de Duff Hallman?
Hallman, de 74 anos, trabalha no rancho de 9.200 acres que divide com os irmãos e que pertence à família há quatro gerações. Em 2007, após o enfraquecimento da renda com petróleo e o fim de subsídios federais à lã, os proprietários assinaram um contrato de arrendamento com uma empresa de energia limpa para criar uma nova fonte de receita.
Segundo a reportagem, durante cerca de seis meses trabalhadores retiraram pedras, arbustos e árvores, abriram 53 milhas de estradas e instalaram 33 torres de aço na propriedade. O processo alterou a paisagem e causou preocupação ao fazendeiro, que temia ter cometido um erro. Mais tarde, porém, o rancho passaria a integrar o parque eólico Langford Wind, de 160 megawatts, em operação desde 2009.
“Nós achávamos que o vento apenas soprava sobre a superfície.”
A experiência individual de Hallman reflete uma transformação mais ampla no oeste do estado, onde bombas de extração de petróleo passaram a dividir espaço com turbinas e painéis solares. A promessa era dupla: geração de energia e renovação econômica em regiões que perderam parte de sua base produtiva tradicional.
Por que os incentivos federais eram centrais para esse crescimento?
O texto afirma que o Texas foi um dos maiores beneficiários da Inflation Reduction Act, aprovada em 2022. Nos três anos seguintes, desenvolvedores investiram cerca de US$ 62 bilhões em empreendimentos de energia limpa no estado e anunciaram outros bilhões em obras planejadas. Parte dessas projeções dependia diretamente da continuidade dos créditos tributários federais.
A legislação ampliou e estendeu incentivos anteriores até 2024 e criou um novo sistema de créditos a partir de 2025. De acordo com a reportagem, esse apoio poderia cobrir até 70% do custo de uma instalação, incluindo bônus para projetos em comunidades de baixa renda e em regiões com histórico de extração de combustíveis fósseis.
Antes dos cortes, governos locais e proprietários de terra no Texas poderiam receber quase US$ 50 bilhões em pagamentos de arrendamento e receitas tributárias de projetos atuais e planejados, segundo um relatório citado no texto. Agora, parte desses empreendimentos passou a ter futuro incerto. Como os Estados Unidos são um dos maiores mercados de energia do mundo, mudanças desse tipo também são acompanhadas no exterior por investidores e empresas do setor, inclusive no Brasil.
- US$ 62 bilhões em investimentos em energia limpa no Texas após a lei de 2022
- Quase US$ 50 bilhões em receitas e arrendamentos estimados para projetos atuais e planejados
- Mais de US$ 4 bilhões em investimentos já ameaçados ou cancelados
- Risco de perda de milhares de empregos até 2035, segundo estimativas citadas
Quais condados ilustram os ganhos e os riscos dessa mudança?
Um dos exemplos citados é o condado de Schleicher, onde a produção de petróleo diminuiu e a base tributária encolheu. Ali, projetos construídos ou propostos, incluindo uma instalação de hidrogênio que já foi estimada em US$ 1,2 bilhão em receita tributária, eram apontados como fontes de dezenas de milhões de dólares para escolas, hospitais e outros serviços.
Outro caso é o condado de Scurry, a cerca de duas horas a noroeste do rancho de Hallman. Empresas instalaram aproximadamente uma dúzia de fazendas eólicas e solares, com capacidade total de cerca de 2.300 megawatts. Segundo a reportagem, esses empreendimentos devem gerar quase US$ 1 bilhão para o condado e para proprietários locais ao longo da vida útil das instalações.
“Quando sua população é de 17 mil pessoas, cada emprego conta.”
O juiz do condado de Scurry, Dan Hicks, afirmou que a energia limpa ajudou a estabilizar um orçamento antes sujeito à volatilidade das receitas de petróleo e gás. Os acordos com desenvolvedores teriam criado pagamentos mais previsíveis e de longo prazo. Ainda assim, ele avalia que novos projetos eólicos e solares dificilmente avançarão no mesmo ritmo sem incentivos federais.
O que pode mudar daqui para frente no Texas?
O pesquisador Joshua Rhodes, da University of Texas, disse à reportagem que a expansão do setor pode continuar, mas mais lentamente e com custos maiores. Isso, segundo o texto, tende a significar energia mais cara e retorno menor para condados rurais que esperavam participar desse crescimento.
A reportagem também retrata a realidade de Eldorado, sede do condado de Schleicher, onde prédios envelhecidos e dificuldades estruturais mostram por que a arrecadação adicional era vista como estratégica. Nesse contexto, o recuo nos incentivos não aparece apenas como disputa política sobre matriz energética, mas como uma ameaça concreta às finanças locais e a projetos de desenvolvimento.