O Ministério da Educação (MEC) oficializou o planejamento para tornar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) uma etapa obrigatória para todos os estudantes que concluem o ensino médio na rede pública de ensino. A decisão, oficializada por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 1º de abril, estabelece o uso do exame como instrumento central de avaliação da educação básica brasileira, com o objetivo de integrá-lo gradualmente ao Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
De acordo com informações do UOL Notícias, a equipe do ministro Camilo Santana formalizou a diretriz política para o projeto, embora os aspectos técnicos do novo modelo unificado ainda não estejam completamente definidos pelo governo federal.
Por que o MEC quer mudar o formato do exame?
A finalidade primária da alteração é aumentar o engajamento dos jovens do terceiro ano, que frequentemente priorizam a preparação para o ingresso no ensino superior em detrimento das avaliações estaduais e nacionais focadas em diagnóstico de aprendizagem. Atualmente, o Enem atua como a principal via de acesso às universidades públicas e particulares do país, gerenciando o ingresso pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), Programa Universidade para Todos (Prouni) e Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Ao realizar o anúncio oficial da portaria, o ministro da Educação defendeu a mudança e justificou a motivação principal da pasta.
“Muitas vezes, o aluno que está no 3º ano não está preocupado com a prova do Saeb, ele está preocupado com a prova do Enem. Por isso, não tenho dúvidas de que isso vai aumentar a participação e fortalecer a avaliação do terceiro ano do ensino médio”
Quais são os principais desafios técnicos da transição?
Especialistas em educação alertam que existem diferenças metodológicas profundas entre as duas avaliações. O Saeb mede o nível de proficiência em língua portuguesa e matemática para calcular o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para cobrir todo o currículo escolar necessário, a prova possui diversas versões de aplicação. Em contrapartida, o exame de acesso universitário concentra conjuntos de questões de alta dificuldade matemática e textual para ajudar a selecionar os candidatos para os cursos mais concorridos do país.
Outro ponto sensível recai sobre o viés estatístico causado pelo perfil dos participantes. Historicamente, há um forte índice de abstenção entre alunos de escolas públicas no exame nacional, resultando na presença massiva apenas dos candidatos com o melhor desempenho acadêmico. Pesquisadores apontam que essa característica pode mascarar a realidade e as desigualdades do ensino se a prova for usada puramente para medir a qualidade geral do sistema escolar.
O professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Reynaldo Fernandes, detalhou a discrepância de perfil entre as duas provas.
“O viés do Saeb é o oposto do Enem. Quem falta ao Enem são aqueles que possuem pior desempenho. No Saeb é o oposto, o desempenho dos que faltam é maior”
Como será o cronograma de implementação nas escolas?
O atual presidente do Inep, Manuel Palacios, explicou que a autarquia federal conduzirá agora um processo técnico para adequar o desenho da prova. Segundo ele, a avaliação passará a ter caráter censitário para todos os concluintes da rede pública estadual e federal.
“Com o decreto iniciamos um processo de concertação nacional que tem como objetivo fazer do Enem o instrumento de avaliação do desempenho ao final da escolarização obrigatória e componente principal do sistema nacional de avaliação da educação básica”
A transição para o novo modelo será gradual, obedecendo a prazos estipulados pelas autoridades educacionais para minimizar o impacto nos estados:
- Ano de 2025: Divulgação do atual Ideb sem quaisquer alterações metodológicas em relação ao passado.
- Ano de 2026: Período destinado à transição estrutural do exame e readaptação das redes estaduais de ensino.
- Ano de 2027: Expectativa governamental de alcançar participação censitária dos estudantes nas mesmas proporções do modelo anterior.
O diretor do centro de pesquisa Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Ernesto Faria, questionou a ordem das ações governamentais na formulação da política pública.
“Entendo a preocupação de alinhar o Enem, prova que os estudantes estão de olho e se engajam, mas é preocupante que a decisão tenha ocorrido antes dos estudos técnicos. A ordem está errada”
A mudança estrutural ocorre em um cenário de debates intensos sobre as metas educacionais do Brasil. O Plano Nacional de Educação (PNE) foi renovado e aprovado no Congresso Nacional com diretrizes válidas até o ano de 2034; no entanto, o ministério ainda precisa detalhar como ocorrerá a atualização das métricas do índice de desenvolvimento atreladas ao novo plano decenal.

