A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência especializada da ONU para tempo, clima e recursos hídricos, divulgou neste domingo, 23 de março de 2026, um novo retrato do estado do clima global, apontando que indicadores essenciais atingiram níveis extremos e reforçando o diagnóstico de emergência climática global. O relatório foi apresentado no contexto das Nações Unidas e destaca o desequilíbrio energético da Terra, isto é, a diferença entre o calor que o planeta absorve e o que consegue liberar, como um dos sinais mais preocupantes da crise climática. De acordo com informações da Inside Climate News, o documento reúne dados de redes internacionais de observação, satélites, sistemas de monitoramento oceânico e estações meteorológicas.
Para o Brasil, um dos países mais expostos a extremos como secas, enchentes, ondas de calor e impactos sobre a produção agropecuária e a geração hidrelétrica, relatórios globais desse tipo ajudam a medir riscos que também afetam o território nacional. Ao comentar a publicação, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a Terra está sendo pressionada além de seus limites, enquanto os principais indicadores climáticos seguem em alerta máximo. Segundo ele, o desequilíbrio energético do planeta está no maior nível já registrado, o que significa que a Terra está retendo calor mais rapidamente do que consegue dissipá-lo.
O que o novo relatório aponta sobre o desequilíbrio energético da Terra?
O relatório Estado do Clima Global (State of the Global Climate), da Organização Meteorológica Mundial, passa a incluir pela primeira vez o chamado desequilíbrio energético da Terra como indicador climático central. A métrica mede a taxa em que a energia solar entra no planeta e a energia térmica sai de volta para o espaço. Em um sistema climático estável, esses fluxos tendem a se equilibrar. Segundo o documento, esse balanço foi alterado por atividades humanas que elevaram a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.
Entre os fatores citados estão a queima de combustíveis fósseis e atividades ligadas à produção de alimentos, aço, cimento e plástico. O texto informa que as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso alcançaram o nível mais alto em pelo menos 800 mil anos, intensificando a retenção de calor no sistema climático terrestre.
- Concentração recorde de gases de efeito estufa na atmosfera
- Série de 11 anos mais quentes já registrados
- Acúmulo crescente de calor nos oceanos
- Inclusão do desequilíbrio energético como indicador-chave
Por que essa métrica passou a ser considerada decisiva?
De acordo com a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, a compreensão científica mais avançada sobre o desequilíbrio energético da Terra confirma a dimensão atual da perturbação climática. Ela disse que as consequências desse processo devem permanecer por centenas e milhares de anos.
“Viveremos com essas consequências por centenas e milhares de anos.”
A oceanógrafa Karina von Schuckmann, conselheira científica sênior da Mercator Ocean International e integrante do painel de observações oceânicas da OMM, afirmou que a nova métrica oferece um retrato mais completo da resposta do sistema climático às emissões humanas, ao integrar o calor acumulado nos oceanos, na atmosfera, em terra e no gelo em derretimento.
A vice-secretária-geral da OMM, Ko Barrett, também apontou que o indicador ajuda a mostrar como diferentes partes do sistema climático estão conectadas e evidencia o papel central dos oceanos na absorção da maior parte do calor retido.
Como o calor extra se distribui no sistema climático?
Um dos pontos destacados no relatório é que a temperatura do ar sentida diretamente pela população representa apenas uma pequena fração de toda a energia adicional retida pelo planeta por causa dos gases de efeito estufa. Segundo o texto, cerca de 90% a 93% desse excesso de calor vai para os oceanos, enquanto aproximadamente 5% a 6% contribui para o derretimento do gelo e o aquecimento da superfície terrestre. A parcela associada diretamente à temperatura do ar fica em torno de 1% a 2%.
Esse processo tem efeitos indiretos relevantes para o Brasil, como alterações no regime de chuvas, maior pressão sobre cidades costeiras e impactos sobre atividades dependentes de estabilidade climática. O analista climático independente Leon Simons, coautor de estudos recentes sobre o tema, resumiu a lógica do processo ao afirmar que a mudança climática se baseia no equilíbrio entre a energia que entra e a que sai do planeta, e que os gases de efeito estufa alteram justamente a quantidade de energia que consegue escapar.
“Energia entrando, energia saindo.”
Como o relatório foi elaborado e o que ele indica para os próximos anos?
O documento da OMM foi compilado com contribuições de serviços meteorológicos nacionais, programas internacionais de pesquisa e parceiros da ONU, com dados de quase 190 países. Segundo o texto, as informações refletem o melhor conhecimento científico global disponível no momento.
Ko Barrett afirmou ainda que os fluxos críticos de dados e as observações climáticas não foram interrompidos por grandes contribuintes do relatório, apesar de preocupações recentes sobre cortes em programas climáticos dos Estados Unidos. Ela também disse que não houve redução na demanda por informações climáticas precisas.
Na avaliação de António Guterres, o estresse climático expõe como a dependência de combustíveis fósseis desestabiliza tanto o clima quanto a segurança global. Para ele, acelerar a transição para fontes renováveis de energia é um caminho para ampliar a segurança climática, energética e nacional. Ao final de sua manifestação, o secretário-geral da ONU afirmou que o relatório deveria vir acompanhado de um aviso, porque o caos climático está se acelerando e o atraso na resposta aprofunda os riscos.
“O relatório de hoje deveria vir com um aviso.”