Pelo menos dez políticos brasileiros mudaram seus domicílios eleitorais nos últimos meses, antecedendo o fechamento do prazo da Justiça Eleitoral no início de abril de 2026, com o objetivo de disputar vagas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal nas eleições de outubro. A movimentação estratégica de aliados políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro tem gerado atritos internos e embaralhado as alianças nos estados, uma vez que lideranças locais resistem à chegada de nomes considerados forasteiros em suas regiões.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, essa dança das cadeiras abrange figuras conhecidas do cenário político nacional que buscam viabilidade eleitoral longe de suas bases originais.
Quais aliados de Bolsonaro mudaram de domicílio eleitoral?
No campo da direita, o esforço para formar uma maioria conservadora no Senado motivou transferências polêmicas. O deputado federal Hélio Lopes (PL), próximo ao ex-presidente, trocou o Rio de Janeiro por Roraima. A decisão unilateral surpreendeu o diretório estadual do seu partido, que publicou nota exigindo respeito às lideranças locais e vínculos efetivos com a sociedade roraimense. Vale ressaltar que o atual comandante da legenda no estado renunciou à Prefeitura de Boa Vista recentemente para disputar exatamente a mesma vaga ao Senado.
A família do ex-presidente também se movimentou. O vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) transferiu seu título para Santa Catarina, provocando ruídos na base de apoio do atual governador do estado, Jorginho Mello (PL), que vê com ressalvas a candidatura de alguém sem histórico na região. Por outro lado, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro mudou seu registro para o Distrito Federal de forma pacífica, com aval das lideranças locais, já que nasceu e reside na capital do país.
Como o governo Lula articula seus palanques nos estados?
Na base governista, a alteração mais expressiva envolve a ministra do Planejamento, Simone Tebet. Após se filiar a um novo partido, ela deixou sua base histórica em Mato Grosso do Sul — onde construiu carreira como prefeita, deputada, vice-governadora e senadora — para registrar seu título em São Paulo. O movimento contou com o incentivo direto do presidente da República, que tenta fortalecer sua chapa no maior colégio eleitoral do Brasil. A ministra enfrentava um cenário adverso em seu estado natal após o destaque nacional obtido no pleito presidencial anterior.
Outro nome que disputou a Presidência no passado e busca novos ares é o ex-deputado Cabo Daciolo. Nascido em Santa Catarina e com trajetória política no Rio de Janeiro, ele agora estabeleceu base no Amazonas.
“Escolhi o Amazonas porque o Norte é esquecido. É uma das regiões mais ricas do mundo e uma das mais pobres do Brasil. Eu pretendo trazer na campanha esse discurso do nacionalismo”, relatou o político.
Ele tenta viabilizar uma nova candidatura ao Palácio do Planalto ou, alternativamente, concorrer ao governo estadual ou ao Senado.
Quais nomes tentam retornar à Câmara dos Deputados?
A disputa por cadeiras de deputado federal também atrai políticos em trânsito. A lista inclui figuras de diferentes espectros ideológicos que recalculam suas rotas partidárias.
Entre os principais casos registrados recentemente, destacam-se:
- O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tenta voltar ao Congresso por Minas Gerais, após não obter sucesso por São Paulo na última eleição, mas ainda enfrenta resistências partidárias.
- O ex-deputado Jean Wyllys, que atuava pelo Rio de Janeiro antes de deixar o país sob ameaças em 2019, agora tentará a eleição por São Paulo.
- O humorista Tiririca (PL) retorna ao Ceará, seu estado natal, após cumprir quatro mandatos legislativos representando os eleitores paulistas.
- A deputada federal Rosângela Moro (União Brasil), eleita por São Paulo, confirmou o retorno da sua base para o Paraná, estado onde nasceu e no qual concorreu recentemente como vice-prefeita na capital, Curitiba.
- O dirigente partidário Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, tentará mandato pelo Rio de Janeiro, enquanto sua irmã mira uma vaga de suplente no Tocantins.
O que a Justiça Eleitoral exige para a transferência de título?
A legislação brasileira estabelece regras claras para coibir fraudes na mudança de jurisdição. A Justiça Eleitoral exige a comprovação de vínculo mínimo de três meses com a nova cidade. Esse laço não precisa ser exclusivamente de moradia física; a jurisprudência permite vínculos afetivos, familiares, profissionais ou comunitários que atestem o compromisso do candidato com o novo município.
Além disso, o procedimento burocrático deve ser concluído até 150 dias antes da eleição. Transferências consideradas artificiais podem ser derrubadas pelos tribunais. No pleito anterior, por exemplo, o atual senador Sergio Moro teve sua tentativa de mudança para São Paulo negada pela Justiça por falta de vínculos consistentes. Em contrapartida, o atual governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), obteve êxito no processo de transferência nas eleições de 2022 e teve sua candidatura liberada, mesmo tendo nascido no Rio de Janeiro e construído sua carreira recente em Brasília.


