
Um documentário de longa-metragem em pré-produção, desenvolvido pela Universidade Federal Fluminense (UFF), vai investigar como a escravidão ainda influencia desigualdades sociais, econômicas e políticas no Brasil contemporâneo. O projeto reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros, foi apresentado nesta terça-feira, 31 de março de 2026, no Rio de Janeiro, e propõe uma abordagem transnacional para conectar passado e presente a partir do debate sobre reparações históricas. De acordo com informações da Agência Brasil, a produção integra uma iniciativa internacional financiada pelo governo britânico.
À frente do roteiro e da produção no Brasil está a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora do Departamento de História da UFF. Segundo a reportagem, o filme nasce de uma pesquisa mais ampla sobre reparações da escravidão em diferentes territórios e envolve instituições acadêmicas de vários países, como a University of Bristol, universidades em Gana e na Dominica, além da parceria com a organização brasileira Cultne, voltada à preservação da memória audiovisual da cultura negra.
Qual será o foco do documentário no Brasil?
No Brasil, o eixo central do documentário será a região da Pequena África, no Rio de Janeiro, com destaque para o Cais do Valongo, na zona portuária da capital fluminense, reconhecido como o maior porto de entrada de africanos escravizados nas Américas e declarado Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017. A escolha do local, segundo Ynaê Lopes dos Santos, se relaciona tanto à sua relevância histórica quanto às mobilizações atuais de moradores, ativistas e pesquisadores.
“A ideia é pensar não só as reverberações da escravidão atlântica de maneira comparada e conectada, mas sobretudo entender como os processos de reparação vêm sendo construídos nesses países”
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O projeto também contará com a participação do Instituto Pretos Novos, instituição que atua na preservação da memória de africanos escravizados a partir de vestígios arqueológicos encontrados na região. A proposta, de acordo com a historiadora, é pensar possibilidades de reparação a partir das narrativas e das lutas sociais construídas nesse território.
Por que a produção relaciona escravidão e desigualdade atual?
Segundo Ynaê Lopes dos Santos, o documentário parte da avaliação de que estruturas criadas durante a escravidão seguem presentes na sociedade brasileira. A proposta é mostrar como o racismo opera a partir da experiência histórica da população negra e como seus efeitos atravessam diferentes dimensões da vida social.
“Nós temos a manutenção de uma desigualdade que foi criada durante a escravidão e que não foi resolvida ao longo de mais de 130 anos de República”
“Existe uma desigualdade abissal entre a população branca e a população negra. E discutir reparação não é apenas sobre a população negra — é sobre o país inteiro”
A produção brasileira fará parte de uma série de documentários realizados em diferentes países. Cada obra abordará a escravidão a partir do seu próprio território, mas em diálogo com as demais. A escolha de Brasil, Inglaterra, Gana e Dominica busca refletir dimensões distintas do sistema escravista atlântico.
Como o projeto pretende levar a pesquisa para além da universidade?
Além do longa-metragem, a iniciativa prevê a produção de conteúdos audiovisuais curtos com uso educacional, em alinhamento com a Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, e com as leis que determinam o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. A proposta também busca ampliar o alcance do conhecimento produzido na universidade pública.
“A universidade pública produz conhecimento de qualidade. O desafio é transformar isso em uma linguagem que dialogue com o público mais amplo”
De acordo com a pesquisadora, o filme pretende conciliar rigor histórico e acessibilidade, valorizando o protagonismo de lideranças negras, pesquisadores e moradores da região da Pequena África. A equipe também avalia a possibilidade de desdobrar o projeto em série, diante da complexidade do tema.
- Projeto em fase de pré-produção
- Coordenação brasileira da UFF
- Participação de instituições do Brasil, Inglaterra, Gana e Dominica
- Foco no Cais do Valongo e na Pequena África
- Previsão de conclusão até o fim de 2027
Ainda sem título definido, o documentário deve ser concluído até o fim de 2027. Para Ynaê Lopes dos Santos, a discussão sobre reparação histórica ultrapassa a revisão do passado e se insere como um debate do presente, com impacto direto sobre a compreensão da história e das desigualdades no Brasil.
“A ideia é fazer um bom uso do audiovisual, criando conexões, emoções e trazendo protagonismo para quem sempre esteve à frente dessa luta”
“Falar de reparação é falar de um problema atual. É uma discussão que tem o tamanho da história do Brasil e que precisa ser enfrentada”


