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Documentário Cheiro de Diesel denuncia violações militares em favelas do RJ

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Exército reforça efetivo para o segundo turno das eleições no Complexo da Maré, zona norte do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil
Exército reforça efetivo para o segundo turno das eleições no Complexo da Maré, zona norte do Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil) Foto: 2.2 W — EBC/Agência Brasil — CC BY 3.0 BR

O documentário “Cheiro de Diesel” chegou aos cinemas na quinta-feira (2) expondo uma face obscura da segurança pública no Brasil. A produção audiovisual revela como as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) resultaram em um cenário de graves violações de direitos humanos em comunidades do Rio de Janeiro durante a realização de megaeventos esportivos entre os anos de 2014 e 2018.

De acordo com informações da Agência Brasil, a obra centraliza sua narrativa nos relatos de moradores que vivenciaram abusos e repressões cometidas por membros das Forças Armadas. Desde a conferência Eco 1992, o país já registrou mais de 150 operações desse tipo, sendo a capital fluminense um dos principais focos dessas ações federais.

Como as operações da GLO impactaram as favelas cariocas?

O principal laboratório retratado no filme é o Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Devido à sua posição estratégica, que corta vias importantes como as linhas Amarela e Vermelha, além do acesso ao Aeroporto Internacional do Galeão, a região foi o principal alvo governamental antes da Copa do Mundo.

Sob a justificativa de garantir a segurança para o torneio de 2014, o governo federal enviou cerca de 2,5 mil militares para 15 favelas do complexo por meio da Operação São Francisco. A intervenção teve duração de 14 meses e consumiu estimados R$ 350 milhões em recursos públicos. Segundo os moradores, a promessa de paz rapidamente deu lugar ao medo. O longa-metragem compila denúncias de torturas, coerções, invasões de domicílios e assassinatos.

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A jornalista e codiretora do filme, Gizele Martins, que também reside na Maré, detalhou o choque inicial da comunidade com a chegada das tropas federais.

“No primeiro momento, foi nos vendido a ideia de segurança. Mas no primeiro dia de invasão do Exército, os moradores já começaram a mudar de opinião, pois só naquele dia mais de 20 ou 30 crianças foram detidas porque estavam nas ruas da favela. Casas foram invadidas. Organizações sociais invadidas”

Quais são os principais casos de violência abordados pelo documentário?

As operações de GLO são dispositivos constitucionais que permitem o emprego do Exército, da Marinha e da Aeronáutica em situações excepcionais de crise na segurança pública estadual. No entanto, o documentário questiona a banalização de seu uso, apontando que, mesmo com a eficácia questionável da Operação São Francisco, entre 2016 e 2018 outras três intervenções do tipo ocorreram no estado. Em 2018, a intervenção militar na segurança pública fluminense teve como figura central o general Walter Braga Netto, que posteriormente assumiria os ministérios da Defesa e da Casa Civil no governo federal.

O enredo traça a linha do tempo de tragédias específicas que ganharam notoriedade. A codiretora Natasha Neri destaca que a militarização serviu para passar uma falsa sensação de segurança. Entre os eventos denunciados pela produção audiovisual, destacam-se:

  • O caso de Vitor Santiago, morador da Maré atingido por tiros de fuzil de um cabo do Exército em 2015, resultando na amputação de uma perna e paraplegia. O militar acusado foi absolvido pela Justiça castrense.
  • A Chacina do Salgueiro, ocorrida em novembro de 2017, quando oito jovens foram mortos durante uma ação que envolveu tropas militares.
  • A “Sala Vermelha”, episódio de 2018 no qual 11 jovens foram detidos em uma megaoperação no Complexo da Penha. Eles relatam terem sofrido tortura na mata e dentro do quartel da 1ª Divisão do Exército.

Por que a impunidade militar é o foco da produção?

Além de expor a violência física, o filme debate o arcabouço jurídico que protege os militares. A narrativa critica a Lei nº 13491, sancionada em 2017 pelo então presidente Michel Temer, que transferiu a investigação e o julgamento de crimes dolosos contra a vida cometidos por militares contra civis para a Justiça Militar.

Para as diretoras, essa estrutura favorece o arquivamento das denúncias e barra a responsabilização dos agentes do Estado. Natasha Neri explica o impacto dessa dinâmica legal na vida das vítimas.

“Os crimes cometidos pelos militares ficam impunes, sem a devida investigação, já que os próprios militares são responsáveis pela condução dos IPMs, e a maioria tem pedido de arquivamento feito pelo Ministério Público Militar”

A obra, fruto de uma extensa pesquisa documental iniciada há dez anos com inquéritos e relatos de vítimas, teve sua estreia oficial nas salas do Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Caxias do Sul. Na capital federal, Brasília, o lançamento está marcado para a próxima quinta-feira, 9 de abril, acompanhado de debates com o público.

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