A Central Estadual de Transplantes (CET), vinculada à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), intensifica as ações de sensibilização para a doação de órgãos no Pará. A iniciativa visa informar a sociedade e quebrar tabus culturais para elevar o número de doadores e reduzir as filas de espera. De acordo com a legislação brasileira, não é necessário registrar a vontade de ser doador em documentos oficiais; basta que a pessoa expresse esse desejo aos seus familiares em vida para que a decisão seja respeitada.
De acordo com informações da Agência Pará, sensibilizar os parentes para autorizar o procedimento continua sendo um dos maiores desafios do sistema de saúde. Dados da CET revelam que, entre os anos de 2000 e 2025, o estado registrou 735 negativas familiares. Em contrapartida, houve 459 manifestações favoráveis no mesmo período, o que resultou na doação de:
- 19 corações;
- 217 fígados;
- 873 rins;
- 91 válvulas cardíacas.
Como funciona a estrutura de captação de órgãos no estado?
O trabalho fundamental para que os transplantes ocorram é realizado pela Organização de Procura de Órgãos (OPO). Essa equipe multidisciplinar, formada por médicos e enfermeiros, atua como o elo entre os hospitais, a Central de Transplantes e as famílias dos doadores. Eles são responsáveis por identificar potenciais doadores, avaliar a viabilidade dos órgãos, conduzir trâmites logísticos e realizar a entrevista familiar, etapa indispensável para a autorização da captação.
Atualmente, o território paraense conta com duas unidades em operação: a OPO Tapajós, sediada em Santarém, e a OPO Metropolitana I, em Belém. Para ampliar a cobertura e reduzir perdas por questões geográficas, o plano estadual prevê a abertura de mais duas frentes de trabalho: a OPO Carajás, em Marabá, e a OPO Caetés, em Capanema. A expansão é vista como estratégica, uma vez que a distância da capital ainda é um fator que inviabiliza doações em municípios remotos.
Qual é o critério para a validação de um doador?
O processo de doação só é iniciado após a confirmação do diagnóstico de morte encefálica, seguindo protocolos rígidos de segurança. Conforme explica a gerente de Doação de Órgãos e Tecidos da CET, Ana Gabriela Sabaa, o acolhimento familiar começa antes mesmo da conclusão do diagnóstico em casos de lesões neurológicas graves ou acidentes vasculares cerebrais. A validação técnica também exclui pacientes com doenças infectocontagiosas ou câncer, para garantir a segurança dos receptores.
“Há entrevistas que chegam a durar até quatro horas, porque precisamos esperar o processo do luto, da negação, principalmente quando a família não está preparada para receber a notícia. Só depois, entramos com a pergunta sobre a doação de órgãos, então é bem desafidador”
Além do suporte emocional, a equipe da OPO lida com estigmas e mitos. Muitas famílias temem que o corpo seja deformado durante o procedimento, o que é refutado pelos profissionais de saúde. O respeito e a ética no tratamento do corpo do doador são mantidos do início ao fim, garantindo que o velório ocorra normalmente sem sinais visíveis da cirurgia de captação.
Como os órgãos chegam aos pacientes que precisam de transplante?
Uma vez autorizada a doação, inicia-se uma complexa operação logística. A CET articula o transporte dos órgãos com o apoio do Grupamento Aéreo de Segurança Pública (Graesp) e da Força Aérea Brasileira (FAB), permitindo que as peças cheguem rapidamente a outras cidades ou estados. Em casos de transplante de fígado, por exemplo, o receptor muitas vezes já se encontra internado na Santa Casa de Misericórdia, em Belém, aguardando a chegada do órgão.
Para manter o sistema eficiente, a CET promove a educação continuada de médicos e enfermeiros, oferecendo cursos de determinação de morte encefálica e simulações de entrevistas familiares. A meta é garantir que todos os hospitais, mesmo os que não possuem equipes próprias de doação, saibam como notificar óbitos e conduzir o acolhimento inicial, assegurando que nenhuma oportunidade de salvar vidas seja perdida por falta de informação ou preparo técnico.