
A disseminação de informações falsas e a hesitação vacinal estão comprometendo a imunização de adolescentes brasileiras. Um levantamento científico divulgado em abril de 2026 revelou que 26,4% das meninas não receberam sequer uma dose do imunizante responsável por prevenir o papilomavírus humano, o principal causador do câncer de colo de útero — um dos tumores malignos mais frequentes na população feminina no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A situação ocorre em todo o território nacional e afeta até mesmo parcelas da população com maior poder aquisitivo.
De acordo com informações da Agência Bori, a pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, e publicada na revista científica Ciência & Saúde Coletiva. Os pesquisadores analisaram dados referentes a mais de 80 mil alunas por meio da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde.
Como a disparidade regional afeta a vacinação contra o HPV no Brasil?
O estudo aponta que a média nacional de adolescentes não imunizadas esconde profundas diferenças entre os estados brasileiros. Enquanto no estado do Espírito Santo 17,3% das meninas em idade escolar não tomaram a vacina, o estado do Rio Grande do Norte apresenta um cenário muito mais alarmante, alcançando o índice de 34,2% de adolescentes desprotegidas contra o vírus.
Segundo os especialistas envolvidos no levantamento, essas variações são um reflexo histórico das dificuldades de acesso e infraestrutura no país. O pesquisador Fernando Wehrmeister, um dos autores do trabalho desenvolvido na instituição federal, detalha as raízes do problema na distribuição da saúde pública.
Desigualdades regionais existem no Brasil em quase todos os indicadores de saúde, e não seria diferente nesse caso. Vários aspectos influenciam essa desigualdade regional, como organização dos serviços de saúde, distância das estruturas de saúde, falta de profissionais e financiamento insuficiente, entre outros aspectos.
Qual é a relação entre poder aquisitivo, internet e hesitação vacinal?
Um dos dados que mais chamou a atenção dos cientistas ocorreu na análise dos estados de Mato Grosso do Sul e da Bahia. Nessas regiões, as adolescentes pertencentes a famílias com maior nível socioeconômico são, paradoxalmente, as que menos procuraram os postos para receber as doses.
A recusa em aceitar a ciência, impulsionada pelas plataformas digitais, é apontada como a principal causa para que famílias com acesso à saúde privada e à informação rejeitem o método de prevenção. Sobre esse fenômeno contemporâneo, o especialista alerta para o perigo das campanhas contrárias à imunização.
A hesitação vacinal pode, sim, ser um dos fatores que poderiam explicar esse resultado. Outro ponto importante que pode estar relacionado é a desinformação e o consequente aumento do movimento antivacina. As redes sociais desempenham um papel importante nesse aspecto, desinformando as pessoas sobre os benefícios da vacina.
Por que o nível de escolaridade materna impacta a imunização das filhas?
Apesar do movimento antivacina nas classes mais altas, o estudo também confirmou que a vulnerabilidade educacional afeta diretamente a proteção de adolescentes em diversas localidades do país. A pesquisa identificou que as meninas cujas mães possuem menor grau de instrução formal apresentam uma chance significativamente menor de serem levadas às unidades básicas para garantir a proteção.
O nível de estudo das responsáveis familiares surge como um determinante social de saúde fundamental. A compreensão aprofundada dos calendários oficiais e da importância da prevenção de doenças oncológicas está intrinsecamente ligada aos anos de estudo das mães.
Melhorar a educação é algo pelo qual devemos lutar sempre. Com maior escolaridade, as mães podem se empoderar para tomar decisões mais adequadas para sua saúde e a de seus filhos. O serviço de saúde precisa entender os motivos que levam essas mães a não vacinarem seus filhos.
Quais são as soluções para ampliar a proteção contra o papilomavírus humano?
A constatação de que mais de um quarto das adolescentes está exposto a tumores genitais plenamente evitáveis exige ações imediatas das autoridades sanitárias. A vacina é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas a simples oferta do insumo nos refrigeradores das clínicas não é suficiente para garantir a adesão do público-alvo.
Para contornar o baixo alcance e prevenir uma sobrecarga futura na rede pública com tratamentos oncológicos de alta complexidade, os especialistas recomendam a adoção de estratégias múltiplas focadas na população jovem. Entre os principais caminhos apontados pela comunidade acadêmica estão:
- Desenvolvimento de campanhas de conscientização desenhadas especificamente para a realidade cultural e estrutural de cada região do Brasil.
- Combate ativo e sistemático à disseminação de notícias falsas e teorias da conspiração em ambientes virtuais e redes sociais.
- Ações de busca ativa nos ambientes escolares para garantir que a cobertura vacinal alcance meninas e meninos em idade escolar.
- Investimento contínuo na educação de jovens e adultos para fortalecer a confiança geral nas intervenções baseadas em evidências científicas.


