O fundador da empresa britânica de agricultura orgânica Riverford, Guy Singh-Watson, relatou como a desconstrução de padrões limitantes de gênero transformou a cultura de sua companhia. O tema dialoga com desafios globais do agronegócio — no Brasil, por exemplo, dados do Censo Agropecuário do IBGE indicam que as mulheres dirigem apenas cerca de 20% das propriedades rurais. De acordo com um artigo de opinião publicado no Guardian Environment em 6 de abril de 2026, o empresário refletiu sobre o impacto do machismo nos negócios durante um evento do Dia Internacional da Mulher na famosa loja de departamentos Selfridges.
Na ocasião, ele ouvia sua esposa, Geetie, palestrar sobre suas vivências como ativista ambiental e restauratrice. Essa experiência o levou a adotar medidas práticas para combater a desigualdade salarial e promover um ambiente comercialmente rentável.
Como a desigualdade de gênero afetava a fazenda britânica?
No ano de 2017, a medição interna de salários da companhia revelou um cenário claro de disparidade: as funcionárias recebiam o equivalente a 91% do valor pago aos colegas do sexo masculino nas mesmas funções. Naquele momento, as justificativas da diretoria e as tentativas de mudança foram consideradas fracas, esbarrando na relutância dos líderes em confrontar seus próprios preconceitos silenciosos e na falta de diversidade nas tomadas de decisão.
A virada corporativa ocorreu na propriedade agrícola de Baddaford, quando a alta gestão decidiu colocar a melhor profissional da equipe de colheita — uma mulher jovem chamada Maddie — no comando do setor de operações físicas e recursos humanos. A nova gerente exigiu mudanças significativas, tornando o ambiente de trabalho mais dinâmico e seguro para todos. Como resultado direto dessa gestão feminina, a fazenda hoje é uma das poucas do setor de vegetais que possui uma extensa lista de espera de trabalhadores interessados nas vagas de colheita.
“Como muitos dos homens mais ‘esclarecidos’ da minha geração, eu resistiria a ser rotulado de sexista, mas a menos que você denuncie o preconceito quando o vê, você também pode ser um.”
O empresário pontuou a frase acima em seu relato, destacando que o sucesso do agronegócio e de diversos outros mercados depende fortemente da capacidade intrínseca de construir e manter bons relacionamentos diários com as equipes de campo e gestão.
Quais os reflexos da solidão masculina e dos papéis sociais?
A experiência administrativa levou a questionamentos mais profundos sobre a dificuldade de homens mais velhos em lidar com questões sensíveis e na comunicação intrafamiliar. Estatísticas apontadas pelo empresário indicam uma crise silenciosa em curso na sociedade britânica:
- Cerca de 75% dos homens mais velhos e sem parceiras relatam sentimentos agudos de solidão.
- Existe uma crença social enraizada de que a função exclusiva masculina é a provisão e a proteção física.
- A falta de habilidades conversacionais faz com que muitos pais passem o telefone para as esposas durante as ligações dos filhos em lares com os chamados ‘ninhos vazios’.
- Esse padrão comportamental histórico gera isolamento na velhice e afasta o público masculino da validação afetiva que tanto busca na sociedade.
Fundada no ano de 1986, a empresa agrícola iniciou sua transição estrutural oficial no ano de 2018, ao adotar um modelo de propriedade compartilhada entre os funcionários. Esse processo de democratização exigiu introspecção e uma avaliação minuciosa de como e por quem as diretrizes eram formuladas. Durante três anos, a área de Recursos Humanos trabalhou ao lado de um treinador de negócios para edificar uma cultura de inclusão verdadeira. As mudanças começaram pelos líderes da alta cúpula, que precisaram aceitar críticas valiosas de suas funcionárias e colegas de setor.
Por que a inteligência emocional gera resultados financeiros?
Os resultados dessas reestruturações profundas ficaram evidentes no balanço da empresa correspondente ao ano de 2025. A histórica diferença salarial entre os gêneros não apenas desapareceu, mas tornou-se estatisticamente favorável ao público feminino da organização. Atualmente, as profissionais do grupo ganham, em média, 1,56% a mais por hora de trabalho na comparação direta com os homens. O caso ilustra uma superação num cenário global desafiador: para efeito de comparação, no Brasil atual, dados do IBGE apontam que as mulheres ainda recebem, em média, cerca de 21% a menos que os homens no mercado de trabalho geral.
Esse índice favorável às mulheres na empresa do Reino Unido ocorreu majoritariamente devido ao aumento substancial da presença feminina nos cargos de alta gestão. O processo de equidade segue em andamento corporativo, sendo amplamente liderado por um conselho interno de coproprietários focado na defesa ininterrupta da diversidade e da inclusão plena.
A adoção da chamada alfabetização emocional provou ser um grande diferencial competitivo no mercado. Negócios modernos que acolhem características emocionais — como compaixão, empatia e abertura para o diálogo — constroem relações infinitamente mais sólidas e duradouras com fornecedores estruturais, colegas de trabalho e clientes exigentes.
Aos 65 anos de idade, o autor do relato conclui seu pensamento lamentando o tempo perdido tentando se adequar a estereótipos limitantes e empobrecidos de comportamento de gênero ao longo das décadas. Ele defende enfaticamente que os líderes do sexo masculino não devem permanecer calados ou envergonhados ao presenciar atitudes discriminatórias no ambiente de trabalho. Ao abandonar a figura antiquada do protetor provedor, a liderança empresarial moderna abre espaço para inovações que beneficiam diretamente o rendimento comercial e a qualidade de vida de todas as equipes envolvidas na cadeia produtiva.


