
O setor de transporte de cargas nos Estados Unidos começa a dar sinais claros de recuperação no início de 2026, impulsionado pela estabilização e aumento na demanda por matérias-primas essenciais da cadeia de suprimentos. A fabricação de paletes de madeira e a produção de papel para embalagens registraram ganhos significativos em fevereiro. Como as mercadorias precisam ser embaladas e alocadas em estrados antes de serem enviadas, a movimentação desses dois insumos antecipa com precisão para onde o volume de fretes rodoviários está se dirigindo. Para o Brasil, que figura como o maior exportador global de celulose de mercado, o aquecimento da indústria papeleira americana é um indicador relevante que pode impactar positivamente as exportações nacionais.
De acordo com informações da FreightWaves, os analistas estão observando métricas que geralmente passam despercebidas pela maioria das transportadoras. Dados divulgados pela Associação Americana de Florestas e Papel e os registros do Índice de Preços ao Produtor do Bureau of Labor Statistics (agência oficial de estatísticas do governo dos EUA) apontam que o longo período de recessão no setor de transportes, iniciado no final de 2022, pode finalmente estar chegando ao fim.
Por que os paletes e o papelão preveem a demanda por fretes?
A lógica por trás dessa métrica é puramente operacional. Praticamente qualquer carga ligada ao varejo ou bens de consumo, seja enviada para centros de distribuição ou fábricas, viaja sobre um palete de madeira e dentro de uma caixa de papelão ondulado. A sequência natural de fabricação e aquisição desses materiais ocorre semanas antes de a mercadoria ser efetivamente transportada. Assim, a indústria que compra as caixas hoje está sinalizando quanto frete precisará ser transportado nas semanas seguintes.
Historicamente, os preços dos paletes acompanham o fluxo econômico. Desde a década de 1970 até 2020, o índice de preços cresceu de forma constante. Com a pandemia, o consumo de bens disparou, levando o índice de aproximadamente 200 pontos para um pico de 440 em meados de 2022. Contudo, a recessão subsequente derrubou esse número para a faixa de 325 pontos, causando o fechamento de dezenas de milhares de pequenas empresas de transporte. Atualmente, os dados mostram que o índice parou de cair, acompanhado por outros sete indicadores principais que também voltaram a ficar positivos.
O que os números da indústria de papel revelam sobre o futuro?
O relatório de fevereiro de 2026 focado em papéis para embalagens revelou métricas fundamentais para o setor logístico. Entre os dados mais relevantes, destacam-se:
- O volume total de remessas de papéis para embalagens e embalagens especiais aumentou quatro por cento em relação a fevereiro de 2025.
- A taxa de operação de papéis para embalagens não branqueados atingiu 83,9 por cento, o que representa uma alta de quatro pontos percentuais na comparação anual.
- Os estoques totais de papel registraram um aumento de sete por cento em relação ao ano anterior.
- As remessas de papel branqueado, utilizado para embalagem de alimentos em redes de fast-food, apresentaram uma queda de 1,5 por cento.
Uma taxa de operação de quase 84 por cento nas fábricas de papel indica um ritmo acelerado de produção. As indústrias não operam nesse nível elevado quando o mercado está lento. Esse volume de trabalho significa que as empresas de conversão, responsáveis por transformar o papel bruto em caixas de papelão ondulado, estão realizando pedidos robustos para atender à demanda de fabricantes, varejistas e centros de distribuição do comércio eletrônico. No entanto, o aumento de sete por cento nos estoques exige cautela, pois pode significar tanto um acúmulo estratégico para uma demanda futura esperada quanto um descompasso onde a produção superou os pedidos reais.
Como o fim da isenção para plataformas de e-commerce afeta o mercado?
Além dos indicadores de recuperação industrial, um fator regulatório recente atua diretamente a favor da demanda estrutural por paletes e fretes nos Estados Unidos. Em agosto de 2025, o governo federal norte-americano eliminou a isenção tributária conhecida como de minimis para pacotes de baixo valor oriundos de plataformas internacionais de comércio eletrônico, como a Temu e a Shein. O movimento é semelhante à taxação de compras internacionais de até US$ 50 aprovada pelo Congresso brasileiro em 2024, que também alterou a dinâmica de importação dessas mesmas varejistas asiáticas no país.
Na prática, essa mudança legislativa obriga que produtos baratos e pacotes individuais de baixo custo, que antes viajavam diretamente para os consumidores por meio do sistema de pequenos volumes, passem a integrar o sistema normal de importação do país. Consequentemente, essas mercadorias agora precisam ser alocadas em contêineres e, obrigatoriamente, movimentadas sobre paletes ao chegar em solo americano. Esse novo cenário adiciona uma camada de demanda contínua e permanente pelas plataformas de madeira, fortalecendo ainda mais os indicadores positivos para o transporte rodoviário e a logística em geral.


