Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centers, expressou preocupação com o ritmo de crescimento da infraestrutura tecnológica no Brasil. Segundo o executivo, dois fatores principais impedem o país de se tornar um polo global de processamento de dados: o protecionismo comercial e o elevado custo de capital. O alerta foi relatado em reportagem publicada pelo Valor em 28 de março de 2026, no contexto de uma demanda crescente por centros de dados impulsionada pelo avanço da inteligência artificial no mercado global.
De acordo com informações do Valor Empresas, o executivo argumenta que, embora o Brasil possua uma matriz energética majoritariamente renovável, as barreiras de entrada para equipamentos de alta tecnologia acabam por encarecer os projetos de forma desproporcional. A necessidade de importar componentes que não possuem fabricação nacional equivalente eleva o patamar de investimento necessário.
O custo financeiro no Brasil, influenciado pelo nível dos juros, afeta diretamente as empresas que operam em setores intensivos em capital. Para construir e manter um data center de grande escala, são necessários aportes de R$ 1,5 bilhão ou mais em infraestrutura elétrica e hardware de ponta, o que torna o financiamento doméstico pouco atrativo e oneroso para os investidores.
Como o protecionismo afeta a expansão dos centros de dados?
Segundo Alessandro Lombardi, as tarifas de importação aplicadas sobre servidores de alto desempenho e unidades de processamento gráfico (GPUs) criam uma desvantagem competitiva para o país. Como esses componentes fundamentais para a IA não são produzidos localmente em escala, o imposto de importação atua como um custo adicional que reduz a margem de lucro e afasta o interesse de grandes provedores de nuvem.
O executivo ressalta que o Brasil compete diretamente com mercados maduros, como os Estados Unidos e países da Europa, onde há políticas de incentivo e custos menores para aquisição de hardware. Para o presidente da Elea Data Centers, é necessário que o governo federal trate a infraestrutura de dados como um ativo estratégico para a nova economia digital, e não como um produto de consumo supérfluo.
Qual o impacto das taxas de juros no setor de infraestrutura digital?
O custo de capital elevado dificulta o planejamento de longo prazo, que é a espinha dorsal do setor de infraestrutura. No mercado de centros de processamento, o retorno sobre o investimento costuma ocorrer após anos de operação contínua. Com a taxa Selic em patamares elevados, o serviço da dívida consome grande parte do fluxo de caixa operacional, limitando a capacidade de expansão orgânica das empresas brasileiras.
Para tentar mitigar esses efeitos, diversas companhias buscam financiamento em mercados estrangeiros. Entretanto, essa estratégia expõe os negócios ao risco cambial, uma vez que a receita costuma ser gerada em moeda nacional, enquanto os pagamentos de hardware e dívidas externas são realizados em dólar. A volatilidade do real torna a gestão financeira um desafio constante para o setor de tecnologia.
Por que o Brasil é considerado estratégico para o mercado de dados?
Apesar dos desafios econômicos citados por Alessandro Lombardi, o país mantém diferenciais competitivos naturais que o mantêm no radar dos investidores. A matriz elétrica brasileira, composta em grande parte por fontes como hidrelétrica, eólica e solar, atende a exigências de sustentabilidade cada vez mais presentes nos projetos de grandes empresas de tecnologia.
As principais vantagens do Brasil incluem:
- Matriz energética limpa e renovável em abundância;
- Posição geográfica estratégica como hub de conectividade na América do Sul;
- Grande mercado consumidor interno para serviços de nuvem e streaming;
- Disponibilidade de terrenos adequados para grandes construções industriais.
Lombardi reforça que o Brasil tem o potencial de ser um protagonista na era da inteligência artificial, mas alerta que, sem uma reforma estrutural que reduza o custo tributário e financeiro, o país pode perder investimentos para outros mercados com políticas de incentivo já consolidadas para a infraestrutura digital.



