Os incentivos fiscais concedidos a data centers na Carolina do Norte estão sob questionamento depois que o governador Josh Stein defendeu que parlamentares reavaliem essas isenções, em meio à dificuldade do poder público para medir custos e benefícios do setor. Segundo a reportagem publicada em 10 de abril de 2026, empresas do segmento podem deixar de recolher até US$ 57 milhões por ano em receitas estaduais e locais, valor que pode crescer para bilhões de dólares caso todos os projetos propostos sejam construídos. De acordo com informações do Inside Climate News, a opacidade da indústria impede uma avaliação independente mais precisa sobre o retorno econômico dessas operações.
As isenções sobre vendas e uso foram aprovadas pelo Legislativo estadual em 2010 e ampliadas em 2015. Durante reunião de sua força-tarefa de política energética nesta semana, Josh Stein afirmou que, à época, ninguém poderia prever o crescimento acelerado dos data centers e o volume de energia consumido por eles. Segundo o governador, os incentivos surgiram quando o setor ainda era novo e buscava atrair capital, mas esse contexto já teria mudado.
Por que o impacto econômico dos data centers é difícil de medir?
De acordo com a reportagem, operadores de data centers na Carolina do Norte podem manter sob sigilo muitos de seus dados financeiros e operacionais. Eles não precisam informar o total de isenções utilizadas, nem apresentar informações suficientes para uma análise independente do impacto econômico de seus projetos. Em alguns casos, governos locais também ficam contratualmente impedidos de divulgar dados de consumo de energia e água.
Em relatório citado pela reportagem, o Departamento de Comércio do estado afirmou que as agências públicas têm visão limitada sobre o uso de energia e a atividade econômica do setor. O órgão disse ainda que não calculou os benefícios econômicos dos data centers porque não dispõe das informações necessárias e que os parlamentares teriam de mudar as exigências de prestação de dados para conhecer o valor real das isenções.
Quais incentivos fiscais estão em vigor?
Na Carolina do Norte, data centers qualificados não pagam imposto sobre vendas de determinados equipamentos, como sistemas de aquecimento e ar-condicionado, hardware e software de computador e infraestrutura elétrica. Para obter esse benefício, os projetos precisam cumprir padrões salariais no condado, oferecer seguro de saúde a funcionários em tempo integral e investir US$ 75 milhões em recursos privados em até cinco anos.
Além disso, esses empreendimentos também podem ficar isentos de tributos sobre o consumo de eletricidade. Segundo números do Departamento de Comércio citados pela reportagem, um grande projeto com consumo de 100 megawatts pode evitar o pagamento de até US$ 2,2 milhões por ano. O texto ressalta, porém, que esse número pode variar porque a concessionária Duke Energy pode negociar condições específicas com clientes muito grandes.
- Isenção sobre vendas e uso de equipamentos específicos
- Exigência de investimento privado de US$ 75 milhões em cinco anos
- Necessidade de cumprir padrões salariais locais
- Oferta de seguro de saúde a empregados em tempo integral
- Possibilidade de isenção também sobre o consumo de energia elétrica
O que dizem autoridades e representantes locais?
A senadora estadual Julie Mayfield, democrata do condado de Buncombe e integrante da força-tarefa de política energética, afirmou que o Legislativo deveria reconsiderar as vantagens fiscais para data centers, em linha com a revogação de vários incentivos à energia limpa. Para ela, se o objetivo inicial era atrair esse tipo de empreendimento, é possível argumentar que a meta já foi alcançada.
Já Scott Mooneyham, porta-voz da NC League of Municipalities, disse que a entidade não adotou posição sobre as isenções. Segundo ele, algumas cidades e municípios associados veem os data centers, quando implantados em locais adequados, como impulso relevante para a arrecadação com impostos sobre propriedades. Outros, porém, demonstram preocupação com propostas que podem gerar impactos na qualidade de vida dos moradores e afetar o valor de casas no entorno.
Como o caso do Google em Lenoir ilustra essa falta de transparência?
A reportagem cita o data center do Google em Lenoir, no condado de Caldwell, em operação desde 2007, como exemplo de como é difícil medir os efeitos econômicos concretos desses investimentos. A empresa afirma ter investido US$ 600 milhões no projeto e planejar uma expansão de US$ 1 bilhão. Ainda assim, o condado segue classificado pelo Departamento de Comércio como Tier 1, categoria destinada às áreas com maior dificuldade econômica.
Segundo o texto, o Google informou em reportagens anteriores que 400 pessoas trabalham no data center, mas o número exato de empregados é tratado como “segredo comercial” em acordo assinado em 2024 com o condado e a cidade. O consumo de energia, água e esgoto da instalação também é confidencial. Caldwell County e Lenoir ainda concederam incentivos sobre impostos de propriedade para a expansão, condicionados aos investimentos financeiros da empresa e à criação de 30 empregos adicionais. Registros do condado mostram que o Google pagou cerca de US$ 5,2 milhões em impostos sobre propriedade no ano passado, quase 10% de toda a arrecadação desse tributo no condado.
Na reunião da força-tarefa, a deputada estadual Pricey Harrison, democrata do condado de Guilford, pediu que, caso o estado consiga no futuro analisar custos e benefícios dos data centers, dois fatores sejam incluídos: impactos à saúde dos moradores e qualidade de vida. A observação reforça a avaliação, presente na reportagem, de que o debate não se limita a números fiscais e arrecadatórios.