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Crise tóxica no México alerta ONU sobre lixo exportado pelos Estados Unidos

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Montanhas de resíduos plásticos e detritos descartados acumulados em um terreno baldio a céu aberto no México.
Foto: Asamblea Nacional del Ecuador / flickr (by-sa)

O relator especial das Nações Unidas (ONU), Marcos Orellana, alertou no início de abril de 2026 que o México enfrenta uma grave crise ambiental devido ao acúmulo de resíduos perigosos e plásticos vindos dos Estados Unidos. Durante uma missão investigativa de 11 dias no território mexicano, o especialista em meio ambiente e direitos humanos constatou que o país vizinho se transformou em um grande depósito de lixo, expondo comunidades inteiras a altos níveis de poluição e a doenças severas.

De acordo com informações do Guardian Environment, em uma apuração conjunta com a organização Quinto Elemento Lab, as falhas na regulamentação ambiental mexicana permitiram que toxinas e agrotóxicos perigosos afetassem o direito básico da população local a uma vida com saúde e dignidade.

Por que o México é considerado uma zona de sacrifício?

Orellana destacou que as normas ambientais brandas do país geraram um cenário de poluição legalizada. O relator apontou que os altos níveis de consumo e a intensa atividade econômica norte-americana estão utilizando o território mexicano como um escoadouro natural de descartes. Atualmente, existem mais de mil locais oficialmente catalogados no Inventário Nacional de Áreas Contaminadas do país.

Muitos desses territórios passaram a ser conhecidos como zonas de sacrifício. Nesses locais, o desenvolvimento de enfermidades complexas, como câncer, autismo e abortos espontâneos, tornou-se algo corriqueiro para os moradores.

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“Como ouvi durante uma reunião: viver em uma zona de sacrifício significa perder o direito de morrer de velhice”, relatou o especialista da ONU no documento oficial de sua visita.

Quais são os principais polos de poluição industrial?

Durante a passagem de 11 dias, as investigações revelaram diversos pontos críticos espalhados pelo país. Entre os locais avaliados, destaca-se o corredor industrial de Tula, localizado no estado de Hidalgo. A região abriga fábricas de cimento, instalações petroquímicas e siderúrgicas operando às margens de um rio já saturado por esgoto não tratado, proveniente da capital mexicana.

Além de Tula, o relatório preliminar do enviado da ONU listou outros desastres ambientais e áreas profundamente afetadas. Os principais fatores que agravam a saúde das comunidades locais e o ecossistema incluem:

  • Fábricas que despejam resíduos perigosos e químicos diretamente no Rio Atoyac, em Puebla.
  • Grandes fazendas industriais de criação de suínos que contaminam a rede de água potável na Península de Yucatán.
  • O impacto prolongado de um derramamento químico originário da mineração no Rio Sonora, ocorrido há dez anos.
  • A presença de partículas microscópicas de plástico detectadas e quantificadas nos rios Tecate, Atoyac e Jamapa.

Como as autoridades lidam com o descarte dos Estados Unidos?

Os registros governamentais confirmam que os norte-americanos enviam centenas de milhares de toneladas de lixo tóxico anualmente para as fronteiras mexicanas. Esse volume maciço inclui baterias de chumbo-ácido de automóveis, além de sucata de plástico, papel e metal destinados à reciclagem. Organizações ambientais e especialistas questionam a capacidade estrutural da nação latino-americana para processar essa demanda sem causar danos irreversíveis à natureza.

Na cidade de Monterrey, que atua como um polo de manufatura para o mercado vizinho e sofre com a pior qualidade do ar da América do Norte, os moradores enfrentam problemas crônicos no dia a dia. A ativista María Enríquez, cofundadora do Comitê Ecológico Integral, explicou que rinite, asma e graves irritações oculares fazem parte da rotina.

“Nós aprendemos a viver doentes, especialmente com doenças respiratórias”, lamentou a moradora. Guadalupe Rodríguez, diretora de uma rede de creches local, confirmou que as crianças são profundamente afetadas por tosses constantes e crises crônicas.

Quais medidas o governo pretende adotar para conter a crise?

A visita do relator ocorreu a convite do próprio governo, em um momento de crescente pressão pública e internacional. A gestão da atual presidente Claudia Sheinbaum já reconheceu publicamente que as normas regulatórias de emissões industriais estão defasadas e prometeu endurecer as regras. Mariana Boy Tamborrell, procuradora federal do meio ambiente, anunciou que o órgão exigirá que as indústrias reparem financeiramente e ambientalmente os danos causados, implementando um novo e rigoroso sistema de monitoramento atmosférico a partir do polo de Monterrey.

No âmbito legislativo, o senador Waldo Fernández apresentou um projeto de lei federal para restringir severamente as importações de materiais recicláveis. A legislação em debate visa proibir a entrada de lixo estrangeiro caso o impacto ambiental do processamento no território nacional seja superior ao limite legal permitido no país de origem.

Por fim, Orellana sugeriu que as autoridades devem adotar proibições definitivas à importação de lixo perigoso, a exemplo do que já fazem outras nações para evitar que se tornem lixeiras globais. No Brasil, por exemplo, a legislação nacional e a assinatura da Convenção de Basileia proíbem a importação de resíduos perigosos visando evitar esse tipo de cenário, embora órgãos ambientais como o Ibama ainda atuem frequentemente contra tentativas de entrada ilegal de lixo estrangeiro nos portos do país. O especialista enfatizou que a próxima revisão do acordo de livre comércio entre os três países da América do Norte representa uma janela de oportunidade essencial para as negociações. Ele concluiu afirmando que, sem mudanças estruturais e rigorosas, a pressão econômica continuará a agravar o cenário de desastre sanitário.

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