
A Ásia ampliou o uso de carvão e de outros combustíveis mais poluentes para cobrir a falta de energia provocada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, segundo relato publicado nesta terça-feira, 1º de abril de 2026, com foco em países como Coreia do Sul, Filipinas, Índia, Bangladesh e Tailândia. O movimento ocorre diante da redução no fornecimento de energia importada do Oriente Médio, especialmente gás natural liquefeito, e reacende o debate sobre segurança energética e impacto climático na região. Para o Brasil, choques no mercado internacional de energia podem pressionar preços de combustíveis e insumos e afetar cadeias globais às quais o país está ligado.
De acordo com informações do Guardian Environment, governos asiáticos passaram a adotar medidas emergenciais para compensar a escassez de energia. Entre elas estão o adiamento do fechamento de usinas a carvão, o aumento da geração em termelétricas já em operação e ações para reduzir o consumo de eletricidade em diferentes países.
Quais países ampliaram o uso de carvão diante da crise?
Na Coreia do Sul, o governo informou que vai adiar o desligamento de usinas movidas a carvão e retirou limites para a eletricidade gerada por esse combustível. Na Tailândia, houve aumento da produção na maior usina termelétrica a carvão do país. Já as Filipinas, que declararam uma emergência nacional de energia em razão da guerra, também planejam elevar a operação de suas usinas a carvão.
No sul da Ásia, a Índia, que depende do carvão para quase 75% de sua geração elétrica, pediu que as usinas operem em capacidade máxima e evitem paradas programadas. Em Bangladesh, houve aumento tanto da geração elétrica a carvão quanto das importações do combustível em março.
Por que o fornecimento de energia foi afetado?
A pressão sobre o sistema energético está ligada principalmente à queda na oferta de gás natural liquefeito, o GNL, amplamente usado para geração de eletricidade e em setores industriais, como a fabricação de fertilizantes. A reportagem informa que muitos países asiáticos dependem desse insumo e que as cadeias de suprimento foram afetadas pelo fechamento efetivo do estreito de Ormuz, rota por onde passa uma parcela relevante dos embarques globais de GNL. O estreito, entre Irã e Omã, é um dos principais corredores energéticos do mundo, e interrupções ali costumam repercutir nos preços internacionais.
Segundo o texto, ataques a uma importante instalação exportadora de GNL no Catar tendem a agravar ainda mais a escassez e podem produzir efeitos duradouros sobre o setor. Henning Gloystein, diretor-gerente de energia e recursos da Eurasia Group, afirmou que quase 30 bilhões de metros cúbicos de GNL foram retirados das cadeias globais de abastecimento, com mais de 80% da falta concentrada na região do Indo-Pacífico.
“O mercado global mudou, em quatro semanas, de um excedente de oferta relativamente saudável para um déficit muito severo — e isso deve levar não apenas a picos de preços, mas a faltas reais de combustível.”
Na avaliação do especialista, países com reservas de carvão tendem a recorrer ao combustível por ser a forma mais rápida e barata de substituir o GNL no curto prazo. A reportagem também registra, porém, que a Índia acelera autorizações para projetos de energia eólica e sistemas de armazenamento por baterias em Déli.
Quais alertas ambientais e econômicos foram feitos?
Especialistas ouvidos pela reportagem alertam que a volta ao carvão traz consequências graves para o clima e para a saúde pública. Pauline Heinrichs, pesquisadora de clima e energia do King’s College London, disse que a crise deveria funcionar como ponto de inflexão para os governos asiáticos ampliarem investimentos em fontes renováveis, vistas como mais estáveis e menos expostas a choques de preços.
“O impacto do carvão sobre o clima e os resultados de saúde é devastador e desastroso — e isso vem sendo comprovado há muitas décadas.”
A análise apresentada na reportagem sustenta que economias com participação mais relevante de energia renovável se mostram menos vulneráveis a choques externos. Nesse contexto, especialistas defendem que a resposta emergencial não se transforme em dependência estrutural de combustíveis fósseis no longo prazo.
Dinita Setyawati, analista sênior de energia para a Ásia no think tank Ember, resumiu essa avaliação ao afirmar que não é sustentável depender do carvão e que fontes renováveis domésticas são o caminho para ampliar segurança energética e resiliência. Para o Brasil, o cenário também importa porque fertilizantes e combustíveis têm peso sobre custos agrícolas, transporte e inflação, ainda que a reportagem trate diretamente do mercado asiático.
Que outras medidas os governos adotaram para conter a crise?
Além de reforçar a geração em fontes fósseis, vários países asiáticos buscam reduzir o consumo de energia. A reportagem lista medidas já adotadas por governos da região:
- Filipinas e Sri Lanka implementaram semanas de quatro dias para muitos servidores públicos;
- Vietnã passou a incentivar o trabalho remoto;
- Bangladesh antecipou o fechamento de universidades por causa do feriado de Eid al-Fitr e ampliou apagões programados;
- Paquistão transferiu aulas para o ensino remoto online.
O quadro descrito pelo Guardian indica que a crise energética não deve ser resolvida rapidamente. Segundo Gloystein, os danos causados à infraestrutura e ao abastecimento de GNL podem levar anos para ser reparados, o que mantém a pressão sobre governos asiáticos e reforça o dilema entre resposta imediata à escassez e compromisso climático de longo prazo.