A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15) encerrou em 29 de março de 2026, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, com um balanço expressivo para a preservação ambiental global. Representantes de 132 nações e da União Europeia aprovaram medidas protetivas para 40 novas espécies, além de 16 ações de cooperação internacional e 39 resoluções obrigatórias para os países signatários.
De acordo com informações do Projeto Colabora, o evento foi marcado pelo protagonismo brasileiro nas negociações. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima atuou diretamente na aprovação de propostas estratégicas para a fauna nacional e sul-americana, consolidando o compromisso do país com a agenda da biodiversidade.
Quais espécies brasileiras ganharam nova proteção na COP15?
O governo brasileiro obteve sucesso em seis das sete proposições apresentadas para modificar as listas da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres, tratado internacional da ONU voltado à proteção de espécies que cruzam fronteiras durante seus ciclos de vida. As alterações envolvem a inclusão de animais no Anexo I, destinado às espécies ameaçadas de extinção, e no Anexo II, focado naquelas que exigem esforços conjuntos de conservação internacional.
As aprovações lideradas pela delegação do Brasil incluem as seguintes espécies:
- Maçarico-de-bico-torto e maçarico-de-bico-virado (incluídos no Anexo I);
- Peixe pintado, tubarão cação-cola-fina e caboclinho-do-pantanal (adicionados ao Anexo II);
- Aves petréis (inseridas em ambas as categorias protetivas).
A única ressalva ocorreu com o tubarão cação-anjo-espinhoso. A propositura foi retirada para que Brasil, Argentina e Uruguai realizem estudos conjuntos adicionais sobre o real grau de ameaça do animal.
Havia uma controvérsia se a espécie estava ou não em risco, ou algum tipo de ameaça
Como as novas resoluções afetam as políticas ambientais globais?
As diretrizes estabelecidas durante a conferência possuem caráter legalmente vinculante, obrigando os países membros a implementarem as decisões de forma concreta. As 39 resoluções adotadas abordam temas críticos como a saúde animal, a proteção rigorosa de habitats naturais e a adaptação de infraestruturas, especialmente no setor de energia, para evitar bloqueios nas rotas migratórias continentais.
O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, destacou a relevância dos números alcançados. Segundo o gestor público, existem cerca de 400 espécies migratórias sem proteção formal em todo o mundo.
Conseguimos avançar em 10%. Em nenhuma outra COP houve um número tão representativo
Entre as ações de cooperação internacional validadas pelos presentes, ganharam destaque o plano de conservação focado nos grandes bagres migratórios da Bacia Amazônica, bem como estratégias conjuntas para proteger o tubarão-mangona e o tubarão-peregrino. Propostas de outras nações também avançaram nos painéis, a exemplo da iniciativa francesa para assegurar a proteção integral da ariranha nos dois anexos do tratado multinacional.
Qual a avaliação das organizações de proteção à natureza sobre o evento?
Organizações da sociedade civil classificaram os resultados das discussões no Mato Grosso do Sul como altamente positivos. O WWF Brasil ressaltou a adoção de posições preventivas contra a exploração de mineração no fundo do mar oceânico e a formulação de estratégias enérgicas contra a captura acidental, ilegal e insustentável de animais silvestres catalogados pelo acordo.
Representantes do fundo mundial para a natureza elogiaram o estabelecimento de conexões ecológicas essenciais no texto final. Colmán Ó Críodáin, especialista internacional em políticas de vida selvagem da instituição, enfatizou a criação de rotas seguras e ininterruptas nos oceanos e nos ares.
Acordos sobre ‘corredores azuis’ para tartarugas e ‘rotas migratórias’ para aves contribuem para a recuperação das espécies, ao mesmo tempo em que conservam os ecossistemas essenciais para sustentar as comunidades locais
Por que o Pantanal foi escolhido como sede do encontro internacional?
A realização inédita da reunião diplomática em território brasileiro teve um forte simbolismo geográfico para a proteção de biomas. Campo Grande é a capital de Mato Grosso do Sul e funciona como porta de entrada para o Pantanal, bioma que figura entre as maiores e mais diversas planícies úmidas do planeta e atua como ponto de parada vital para o descanso e a alimentação de centenas de espécies ao longo de seus deslocamentos sazonais.
Patrick Luna, que chefia a divisão de biodiversidade do Ministério das Relações Exteriores, explicou a importância do multilateralismo nas políticas ambientais modernas aplicadas ao longo do evento. De acordo com o diplomata nacional, o sucesso na preservação de um animal exige que todas as nações que integram o trajeto de migração atuem de maneira coordenada e contínua, inviabilizando qualquer tentativa isolada de proteção ambiental por um único país.

