Construção naval dos EUA enfrenta entraves em meta marítima de Trump - Brasileira.News
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Construção naval dos EUA enfrenta entraves em meta marítima de Trump

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Estaleiro naval com guindastes gigantes e navios de guerra em construção ou reparo em doca seca industrial.
Foto: Nicola since 1972 / flickr (by)

Os Estados Unidos detêm menos de 1% do mercado global de construção naval comercial e aparecem empatados com o Vietnã em uma avaliação de competitividade do setor feita pela BRS Group, segundo revisão anual publicada em 1º de abril de 2026. O levantamento, divulgado em meio ao debate sobre as ambições marítimas do governo Donald Trump, aponta que o país enfrenta obstáculos estruturais em mão de obra, custos, cadeia de suprimentos e capacidade industrial, ampliando a distância entre o objetivo de reindustrialização e a realidade do setor.

Para o Brasil, o tema é relevante porque a indústria naval e o transporte marítimo influenciam o comércio global, os custos logísticos e a concorrência internacional em segmentos como petróleo, cabotagem e construção de embarcações. Mudanças na política marítima dos EUA também podem afetar fluxos comerciais e a operação de armadores em rotas internacionais.

De acordo com informações da Splash247, a BRS avaliou sete países e regiões relevantes da construção naval com base em dez critérios, entre eles trabalho, capital, cadeia de suprimentos, capacidade de projeto, preços e habilidade de absorver perdas. A China liderou com 96 pontos em 100, seguida por Coreia do Sul, com 90, Japão, com 80, e Europa, com 76. A Índia somou 56, enquanto Estados Unidos e Vietnã ficaram com 46 pontos cada.

Por que a construção naval dos EUA aparece em desvantagem?

Segundo a análise citada pela publicação, os preços de novas embarcações nos Estados Unidos estão atualmente entre três e cinco vezes acima dos valores praticados na China, na Coreia do Sul, no Japão e até mesmo na Europa. O relatório afirma que, ao procurar estaleiros americanos por indicações de preço, corretores encontram com frequência ausência de projetos prontos, cotações sujeitas a índices de inflação e confirmação de fornecedores de equipamentos, além de prazos de entrega que se estendem por anos após a assinatura de contratos.

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A questão trabalhista é descrita como especialmente sensível. A avaliação indica que o endurecimento da imigração reduz o acesso a uma força de trabalho abundante e de menor custo, fator considerado decisivo para a competitividade do setor. Ao mesmo tempo, a formação de uma base doméstica qualificada de subcontratados, projetistas e engenheiros seria um processo de longo prazo, estimado entre dez e 20 anos com base em trajetórias observadas no Japão, na Coreia do Sul e na China.

O déficit na cadeia de suprimentos também agrava esse cenário. De acordo com a BRS, uma cadeia doméstica curta é essencial para controlar custos, assegurar qualidade e dar previsibilidade aos cronogramas. No entanto, o desenvolvimento dessa estrutura dependeria de volumes sustentados e diversificados de construção naval ao longo de muitos anos, criando um problema circular para a indústria americana.

Qual é a crítica ao Jones Act e às medidas de proteção?

O relatório também aborda o Jones Act, legislação centenária que exige que navios que transportam mercadorias entre portos dos Estados Unidos sejam construídos, de propriedade, registrados e tripulados no país. Segundo a BRS, a norma restringiu a concorrência no transporte marítimo americano. O texto reproduz uma declaração do congressista republicano Tom McClintock, deputado federal pela Califórnia, sobre o tema.

“O Jones Act restringiu a concorrência no transporte marítimo americano”, observa a corretora, citando o congressista republicano Tom McClintock: “Ele enriquece um grupo muito pequeno de interesse especial às custas de todos os consumidores nos Estados Unidos.”

Ainda de acordo com a análise, apesar de ter sido concebida para proteger e estimular uma indústria doméstica, a legislação não resultou no surgimento de um grande armador americano nem de um grande construtor naval do país. O relatório também afirma que a China não é responsável pelo declínio da indústria naval dos Estados Unidos e manifesta ceticismo sobre a eficácia das taxas portuárias propostas anteriormente pelo Representante de Comércio dos EUA para embarcações construídas na China.

O governo Trump apresentou alguma estratégia para reverter esse quadro?

A BRS observa que o governo Trump incluiu a reindustrialização e a soberania das cadeias de suprimentos em sua Estratégia de Segurança Nacional e faz um paralelo com o esforço de Washington para trazer de volta aos Estados Unidos parte da fabricação avançada de semicondutores hoje concentrada em Taiwan. Segundo essa leitura, o uso de alavancas econômicas sobre estaleiros da Coreia do Sul e do Japão, ambos dependentes do acesso ao mercado americano, poderia acelerar a transferência de capacidade produtiva. O relatório também cita, no longo prazo, o potencial de robótica e inteligência artificial como substitutos parciais de mão de obra.

Parte da discussão sobre financiamento aparece no Maritime Action Plan do governo Trump, publicado em fevereiro de 2026. O documento de 36 páginas apresenta uma estratégia baseada em quatro pilares:

  • reconstrução de capacidade produtiva;
  • reforma de treinamento;
  • proteção da base industrial;
  • segurança nacional.

A proposta de financiamento mais destacada prevê uma taxa universal sobre todos os navios construídos no exterior que escalem portos dos Estados Unidos, calculada com base no peso da carga importada. Segundo a modelagem mencionada no texto original, a cobrança poderia variar de US$ 0,01 a US$ 0,25 por quilograma.

“Em breve revitalizaremos nossos outrora grandiosos estaleiros com centenas de bilhões de dólares em novos investimentos”, escreveu Trump na introdução do plano.

Transportadoras e parceiros comerciais, porém, advertiram que a taxa pode elevar custos de importação, distorcer a lógica das rotas e provocar retaliações. Para o Brasil, esse tipo de medida interessa porque portos, exportadores e armadores brasileiros operam em cadeias logísticas globais nas quais alterações tarifárias e regulatórias dos EUA podem repercutir sobre fretes e competitividade. O texto informa que ainda não foram anunciados cronogramas de implementação nem planos concretos de execução.

Quais dados mostram o tamanho do desafio industrial?

Outros números citados pela reportagem reforçam a dimensão do problema.

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