A construção de infraestruturas tecnológicas bilionárias enfrenta um desafio crescente nos principais polos de desenvolvimento. Durante o evento New York Build, realizado entre os dias 18 e 19 de março de 2026, especialistas do setor de construção e arquitetura apontaram que os desenvolvedores de data centers devem obrigatoriamente incluir projetos de benefícios às comunidades locais para conseguir superar a forte resistência pública e os entraves regulatórios.
De acordo com informações do Construction Dive, a principal preocupação atual do mercado imobiliário e tecnológico é o sentimento público em relação a esses megaprojetos. O impacto de obras que demandam alta carga de energia levanta receios reais sobre poluição, ruído intenso e transtornos prolongados na vizinhança. A pressão é tão grande que legisladores do estado de Nova York chegaram a propor recentemente uma moratória de três anos para frear novas construções de data centers que possuam capacidade superior a 20 megawatts. Esse cenário também reflete desafios presentes no Brasil, que desponta como o principal polo de data centers da América Latina, com grande concentração de infraestrutura no estado de São Paulo, onde o impacto nas redes elétrica e hídrica também exige atenção pública.
Como as gigantes da tecnologia estão compensando as comunidades locais?
Para obter a indispensável licença social e política para operar, as grandes construtoras e desenvolvedoras estão passando a tratar os investimentos locais não como caridade, mas como um requisito fundamental do projeto. Se o setor deseja construir, precisará demonstrar de forma transparente o que os moradores ganham em troca. Alguns dos benefícios exigidos pelas populações locais incluem:
- Criação de novos postos de trabalho e programas de desenvolvimento de força de trabalho;
- Investimentos diretos em escolas e melhoria da educação básica;
- Compromissos financeiros com habitação acessível para a população de baixa renda;
- Atualizações na rede elétrica e aportes estruturais em sistemas de água e estradas.
A Meta, por exemplo, comprometeu-se com um investimento adicional de R$ 1 bilhão (equivalente a 200 milhões de dólares na cotação original) em melhorias de infraestrutura de água e estradas para seu projeto de R$ 50 bilhões perto de Monroe, no estado americano da Louisiana. Em uma instalação separada, no estado de Indiana, a companhia destinou milhões para o desenvolvimento da força de trabalho local e infraestrutura viária, conectando estudantes aos empregadores da região.
A Amazon segue o mesmo caminho. Como parte de seu campus de data centers na Louisiana, orçado em mais de R$ 60 bilhões, a empresa prometeu investir pesadamente na rede de tratamento de água local, além de criar um fundo comunitário específico para apoiar a educação científica, tecnológica e matemática na área afetada pelas obras.
Por que os megaprojetos de dados enfrentam tanta resistência popular?
Apesar das tentativas corporativas de mitigação de danos, muitos críticos e especialistas argumentam que essas instalações industriais não trazem vantagens reais a longo prazo para as cidades que as abrigam. Em seu livro recente sobre o planejamento urbano contemporâneo, o autor Gerardo del Cerro Santamaría aponta que os problemas sistêmicos vão muito além dos custos iniciais de construção, afetando de forma severa todo o ciclo de vida das estruturas urbanas.
“Os megaprojetos não são meramente transformadores, mas sim inerentemente disruptivos. O motivo não são os custos excessivos e a má gestão do megaprojeto, mas os impactos disruptivos que os megaprojetos têm nas áreas urbanas.”
O pesquisador destaca em seus estudos que o alto consumo de energia, o uso significativo de recursos hídricos para resfriamento, a constante poluição sonora e a futura geração de lixo eletrônico perigoso são fatores que degradam gravemente o meio ambiente. Ele defende categoricamente que grandes centros urbanos deveriam evitar totalmente a entrada na atual corrida frenética de expansão desse mercado tecnológico.
Qual é a resposta do setor corporativo diante das proibições estatais?
Apesar dos alertas rigorosos sobre os impactos ambientais e sociais, os participantes do painel especializado criticaram duramente a ideia de paralisar as obras por meio de moratórias estatais ou proibições definitivas. O argumento predominante do setor de construção é de que a demanda global por conectividade, armazenamento em nuvem e inteligência artificial continuará crescendo em ritmo acelerado, e a simples proibição apenas transfere o problema para outras jurisdições.
O executivo Rob LoBuono, representante da empresa de design Gensler, resumiu a posição estratégica do mercado imobiliário e tecnológico diante dos atuais obstáculos regulatórios e da crescente insatisfação popular.
“Quando você diz não, a indústria vai seguir em frente. Deveríamos estar dizendo sim, mas com os requisitos certos.”
Ilustrando o apetite implacável do mercado, a desenvolvedora TeraWulf avançou rapidamente no início do ano ao adquirir um vasto terreno no estado do Kentucky. O local oferece acesso imediato a 480 megawatts de energia existente, o que permitiu à empresa contratar a construtora Fluor para erguer imediatamente uma instalação multibilionária. O caso demonstra a urgência do setor em garantir infraestrutura energética rápida, o que torna ainda mais crítica a necessidade de conciliar o avanço tecnológico com a preservação e o bem-estar das comunidades ao redor.

