A conservação ambiental só terá resultados mais consistentes se enfrentar as estruturas de poder que moldam a relação humana com a natureza, e não apenas repetir diagnósticos técnicos, segundo o ecólogo político Bram Buscher, da Wageningen University, nos Países Baixos. A avaliação foi apresentada em entrevista ao podcast da Mongabay, publicada em março de 2026, ao discutir como empresas de tecnologia, plataformas digitais e interesses políticos influenciam políticas ambientais, a circulação de informação e a própria capacidade do movimento ambientalista de promover mudanças estruturais.
De acordo com informações da Mongabay Global, Buscher afirma que a política ambiental global vem sendo cada vez mais condicionada por uma pequena elite política e corporativa. Na visão do pesquisador, essa concentração de poder opera em plataformas que não têm compromisso com fatos ou com a verdade, mas com aquilo que amplia lucro e engajamento, dificultando que mensagens ambientais encontrem uma audiência aberta e bem informada. No Brasil, esse debate tem impacto direto sobre temas como desmatamento, proteção de biomas e licenciamento ambiental, que dependem de decisões políticas, regulação pública e disputa de narrativas no espaço digital.
Por que Bram Buscher diz que fatos, sozinhos, não bastam?
O argumento central do pesquisador é que “falar fatos ao poder” não altera, por si só, as políticas que continuam falhando em proteger o meio ambiente. Para ele, é necessário “falar a verdade ao poder”, o que significa considerar relações políticas, sociais e econômicas que sustentam a degradação ambiental.
“Se você continuar fazendo o mesmo tipo de coisa e não levar em conta as causas profundas, as formas estruturais de poder na raiz do problema, pode até usar termos atraentes como soluções baseadas na natureza, serviços ecossistêmicos e capital natural, mas eles não desafiam de fato as estruturas de poder a promover uma mudança estrutural.”
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Na entrevista, Buscher argumenta que conceitos amplamente usados, como soluções baseadas na natureza, serviços ecossistêmicos e capital natural, podem soar positivos, mas não necessariamente alteram os mecanismos que concentram poder e mantêm práticas destrutivas. Segundo ele, sem atacar as causas políticas de fundo, a conservação corre o risco de apenas administrar sintomas.
O que é o chamado “capitalismo de plataforma” citado na entrevista?
Buscher usa a expressão “capitalismo de plataforma” para descrever um cenário em que atividades antes distribuídas por diferentes caminhos passaram a ser controladas por grandes empresas de tecnologia. Entre os exemplos citados estão redes sociais, inteligência artificial generativa e mecanismos de busca, plataformas que, segundo ele, priorizam coleta de dados e retorno financeiro em vez de engajamento cívico genuíno.
Nesse contexto, o pesquisador afirma que se tornou mais difícil para o movimento ambientalista comunicar suas mensagens de forma clara e efetiva. Em alguns casos, acrescenta, as pessoas já não conseguem distinguir com facilidade o que é real do que não é, um problema que se agrava em uma era de política de pós-verdade. Para o público brasileiro, a discussão dialoga com a forma como informações sobre queimadas, garimpo ilegal, uso da terra e mudanças climáticas circulam nas plataformas e influenciam o debate público.
Como essa crítica se relaciona com a crise da biodiversidade?
Ao defender uma atuação mais ousada de conservacionistas e organizações não governamentais, Buscher afirma que a expansão de áreas protegidas, por si só, não impediu o agravamento da crise de extinção. Ele observa que, ao longo das últimas seis décadas, houve forte crescimento dessas áreas no mundo, mas isso ocorreu ao mesmo tempo em que a perda de biodiversidade continuou.
“Nos últimos 60 anos, houve um aumento extraordinário das áreas protegidas. Passamos de 1% de áreas protegidas no mundo para cerca de 16% a 17% atualmente. As organizações de conservação cresceram enormemente. Hoje são gigantes — como WWF e Conservation International — e, ao mesmo tempo, a crise de extinção se agravou exatamente no mesmo período.”
O texto da Mongabay também menciona que populações de animais silvestres caíram, em média, 73% entre 1970 e 2020, dado apresentado no contexto da chamada sexta extinção em massa. A conclusão defendida por Buscher é que a conservação não pode se limitar à proteção de áreas e espécies sem questionar as causas políticas da destruição ambiental provocada por atividades humanas. No caso brasileiro, essa discussão é especialmente relevante porque o país abriga biomas como Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa, centrais para a biodiversidade global e para políticas de conservação com efeitos econômicos e climáticos.
- Buscher defende atenção às causas estruturais do poder;
- o pesquisador critica a dependência de plataformas digitais voltadas ao lucro;
- a entrevista relaciona pós-verdade e dificuldade de mobilização ambiental;
- a expansão de áreas protegidas é apontada como insuficiente sem mudança política.
Qual é a base acadêmica dessa discussão?
Além da entrevista, a reportagem cita o livro The Truth About Nature: Environmentalism in the Era of Post-Truth Politics and Platform Capitalism, em que Buscher desenvolve essa reflexão. O material também menciona artigo acadêmico assinado por B. Büscher e outros autores, publicado em 2025 na revista Nature Reviews Biodiversity, sobre o valor da ecologia política na conservação da biodiversidade.
Ao longo da conversa, o pesquisador sustenta que compreender como o poder funciona, inclusive em suas formas autoritárias, é condição necessária para produzir respostas deliberadamente diferentes às crises ambientais. A entrevista, portanto, apresenta uma crítica à ideia de que mais dados e mais linguagem técnica bastariam para mudar políticas públicas e decisões econômicas que seguem pressionando ecossistemas em escala global.