O conflito mais recente no Golfo está elevando em €340 milhões por dia os custos adicionais de combustível da indústria de transporte marítimo, segundo análise da T&E publicada em 27 de março de 2026. O impacto recai sobre empresas de navegação expostas à alta dos combustíveis fósseis e a interrupções de oferta, em um cenário que pressiona rotas marítimas globais e reacende o debate sobre eletrificação, eficiência energética e uso de combustíveis alternativos. Para o Brasil, que depende do transporte marítimo para exportações e importações, oscilações desse tipo podem pressionar fretes internacionais e, por consequência, custos logísticos de mercadorias que entram e saem do país. De acordo com informações da CleanTechnica, o levantamento foi produzido pela organização Transport & Environment.
Segundo a análise, desde 28 de fevereiro, as companhias de navegação acumularam mais de €4,6 bilhões em custos extras com combustível. O estudo afirma que 99% da frota global opera com combustíveis fósseis, o que deixa o setor diretamente vulnerável à volatilidade de preços e a possíveis interrupções de abastecimento.
Como o conflito no Golfo afeta o setor marítimo?
O estudo aponta uma escalada rápida nos preços dos combustíveis marítimos. O VLSFO, em Singapura, chegou a €941 por tonelada, alta de 223% desde o início de 2026. Já os preços do GNL subiram 72% desde o começo de março. Para a T&E, esse movimento amplia os gastos operacionais das empresas de navegação em escala global.
Na avaliação da entidade, a dependência de combustíveis fósseis torna o transporte marítimo mais suscetível a choques geopolíticos. A organização sustenta que medidas de eficiência, eletrificação e combustíveis sintéticos produzidos com eletricidade de baixa emissão, conhecidos como e-fuels, poderiam reduzir essa exposição a oscilações de preço no futuro.
O que mudou na comparação entre combustíveis fósseis e e-fuels?
A análise afirma que a disparidade de custos entre combustíveis fósseis e e-fuels diminuiu com a nova alta do petróleo e derivados. Segundo a T&E, a diferença entre o óleo marítimo a gás, um dos combustíveis fósseis mais caros do setor, e os e-fuels caiu para quase paridade, com diferença de pouco mais de 5% em alguns portos.
O texto ressalta que essa tendência pode ser temporária, mas argumenta que a volatilidade dos mercados fósseis compensa parte relevante da desvantagem estrutural de custo dos combustíveis limpos. O recorte considera a diferença entre os custos de produção de e-fuels, como a e-amônia, e os preços de abastecimento de marine gasoil em quatro portos: Rotterdam, Fujairah, Houston e Singapura.
“O caos no Estreito de Ormuz está colocando o comércio marítimo global sob os holofotes. Mas é nos mercados de petróleo que seu impacto será sentido com mais força. A guerra está custando milhões por dia à indústria. Alguns governos e partes do setor passaram o último ano criticando medidas ambientais para o transporte marítimo por serem caras demais, mas esses custos empalidecem em comparação com esta superdisrupção. Se há uma lição nesta crise, é a necessidade de mais investimento europeu em e-fuels e de maior adoção de medidas de eficiência energética para evitar choques futuros dos combustíveis fósseis.”
Quais medidas a T&E aponta para reduzir a vulnerabilidade do setor?
A organização defende a ampliação da produção local de e-fuels, argumentando que, ao contrário dos combustíveis fósseis, eles podem ser produzidos domesticamente e com menor dependência de rotas expostas a tensões geopolíticas. Para a entidade, isso ajudaria a reduzir a vulnerabilidade a choques externos e reforçaria a segurança energética.
Entre as medidas citadas, a análise destaca:
- eletrificação de embarcações de curta distância, como cargueiros costeiros e balsas;
- redução de velocidade operacional, conhecida como slow steaming;
- uso de assistência eólica com velas modernas;
- apoio financeiro direcionado ao desenvolvimento de e-fuels verdes na Europa;
- metas mais fortes no FuelEU Maritime, regulamento da União Europeia para reduzir a intensidade de carbono da energia usada no transporte marítimo.
“Navios que podem ser eletrificados, como cargueiros de curta distância e balsas, são a solução mais imediata para reduzir a pressão sobre o mercado de combustíveis. Ao mesmo tempo, medidas de eficiência para embarcações oceânicas, como a navegação em velocidade reduzida e a assistência eólica, podem gerar grande economia de combustível”, diz Eloi Nordé.
De acordo com a T&E, 20% das balsas da União Europeia já poderiam ser eletrificadas a custo inferior ao de equivalentes movidas a combustíveis fósseis. A organização também afirma que tecnologias modernas de assistência eólica, como velas contemporâneas, podem reduzir o consumo de combustível de embarcações oceânicas em até 18%.
Com base nesses dados, a entidade pede que formuladores de políticas públicas na Europa acelerem a transição para uma indústria marítima mais resiliente e competitiva. A proposta inclui reforço regulatório e suporte financeiro para combustíveis verdes, em um contexto em que a alta dos fósseis volta a pressionar o comércio marítimo internacional.
Para países com forte participação no comércio exterior por via marítima, como o Brasil, movimentos dessa natureza no custo do bunker e de outros combustíveis marítimos tendem a ter efeito indireto sobre cadeias de suprimento, prazos de transporte e preços de produtos importados e exportados.
