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Comércio de “aves mestras” ameaça espécies raras e agrava risco de extinção

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Arara-azul em viveiro, com plumagem vibrante, exibida como mercadoria em ambiente fechado.
Foto: Autor / Flickr (CC BY)

O comércio de aves mestras, usadas para “ensinar” cantos a pássaros de competição no Sudeste Asiático, tem pressionado espécies pouco conhecidas e levado algumas delas a um risco crescente de desaparecimento na natureza. Um estudo recente analisou esse mercado na Indonésia entre 2011 e 2025 e identificou a venda aberta do crested jayshrike, mesmo após sua inclusão na lista de espécies protegidas em 2018. De acordo com informações da Mongabay Global, pesquisadores defendem fiscalização mais rigorosa para conter o comércio ilegal e reduzir o impacto sobre populações silvestres. Embora o foco esteja na Indonésia, o tema dialoga com o Brasil por envolver tráfico de fauna e pressão sobre aves silvestres, um problema também combatido pela legislação ambiental brasileira.

Essas aves não competem diretamente nos torneios de canto, mas são mantidas próximas de pássaros competidores para que estes aprendam elementos de suas vocalizações. Segundo o estudo, essa função fez crescer a demanda por espécies valorizadas pela qualidade do canto e, em alguns casos, por uma suposta capacidade de transmitir confiança ou energia aos animais de competição.

Como funciona o comércio das chamadas aves mestras?

Os pesquisadores investigaram mercados na Indonésia e encontraram exemplares de crested jayshrike à venda em Sumatra, Bornéu, Java, Bali, Lombok e Sulawesi. O trabalho foi publicado na revista Integrative Conservation e aponta que o comércio ocorre de forma disseminada, apesar da proteção legal da espécie. A Indonésia é um dos países mais biodiversos do mundo, e a pressão sobre aves canoras na região é acompanhada por organizações de conservação há anos.

O autor principal da pesquisa, Vincent Nijman, diretor da EcoVerde Global Consulting, afirma que essas aves funcionam como uma espécie de treinadora vocal. Em torneios de canto, aves como a shama-de-uropígio-branco são avaliadas pela duração do canto, ritmo, exibição e volume, e a proximidade com aves mestras pode influenciar esse desempenho.

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O estudo estima que entre 900 e 1.100 crested jayshrikes sejam vendidos por ano em mercados físicos da Indonésia. A espécie aparece como quase ameaçada na Lista Vermelha da IUCN, embora a avaliação mais recente, de 2019, não incluísse dados sobre o comércio. A IUCN é a União Internacional para a Conservação da Natureza, referência global na avaliação do risco de extinção de espécies.

Quais espécies estão sob maior pressão?

O texto destaca que o crested jayshrike não é a única ave mestra sob ameaça. Outras espécies citadas como populares nesse mercado incluem o gray-cheeked bulbul, o brown-cheeked bulbul, a pega-verde-de-java e o rufous-fronted laughingthrush. Entre elas, há aves classificadas como criticamente ameaçadas ou ameaçadas de extinção.

Segundo Simon Bruslund, diretor de desenvolvimento global do Zoológico de Copenhague, a procura por aves mestras tem cobrado um preço alto de várias espécies. Ele observa ainda que a popularidade desses animais segue modas e tendências, variando conforme a qualidade do canto e a percepção sobre sua “energia”.

“Quem sequer já ouviu falar dessa ave? Esta é mais uma faceta do comércio asiático de aves canoras que ameaça uma longa lista de espécies, mas que permanece desconhecida ou foi negligenciada.”

A preocupação dos pesquisadores é que espécies menos conhecidas sejam empurradas para um processo de “extinção secundária”, impulsionado não por seu valor como competidoras, mas por seu uso como instrutoras de canto para outras aves.

Por que a proteção legal não conteve o problema?

O governo da Indonésia incluiu o crested jayshrike na lista de espécies protegidas em 2018. No entanto, segundo os autores, não houve queda significativa nas vendas após a medida. Ao longo de aproximadamente sete anos posteriores à inclusão legal, as aves continuaram a ser encontradas abertamente nos mercados.

De acordo com os especialistas ouvidos na reportagem, a fiscalização tem sido insuficiente para interromper redes já estabelecidas de captura e comércio. Como não existem centros consolidados de reprodução em cativeiro dessas aves, a avaliação é de que os exemplares comercializados provavelmente são retirados da natureza.

  • O estudo monitorou mercados entre 2011 e 2025.
  • A espécie foi protegida oficialmente em 2018.
  • Pesquisadores não identificaram redução significativa do comércio após a medida.
  • A recomendação principal é reforçar a aplicação das leis existentes.

Além da repressão ao comércio ilegal, os pesquisadores e especialistas citados defendem ações educativas voltadas a capturadores e consumidores. O texto também menciona a necessidade de alternativas econômicas, como iniciativas de ecoturismo que preservem as aves em vez de capturá-las.

“A aplicação efetiva das leis já existentes e o fechamento do comércio aberto de crested jayshrikes são medidas urgentes para evitar uma extinção secundária.”

Para os autores, o caso revela uma face menos visível do comércio de aves canoras na Ásia: a pressão sobre espécies pouco conhecidas, mas essenciais nesse mercado. Sem fiscalização efetiva e medidas de conservação mais amplas, o estudo aponta para o agravamento do declínio dessas populações silvestres.

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