A alta dos combustíveis no Brasil já provoca efeitos sobre preços, abastecimento e expectativas para a inflação em meio à guerra no Oriente Médio. Na sexta-feira, 28 de março de 2026, dados apresentados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicaram que o diesel acumulou forte alta desde o início do conflito, enquanto o governo tenta conter os impactos econômicos e a Polícia Federal realizou uma operação em 11 estados e no Distrito Federal contra preços considerados abusivos. A ANP é o órgão federal responsável por regular e fiscalizar o setor de petróleo, combustíveis e biocombustíveis no país. De acordo com informações do g1 Economia, a crise já atinge a rotina de consumidores, importadores, distribuidoras e postos.
Segundo a ANP, o litro do diesel passou, em média, de R$ 6,03 para R$ 7,45 desde o início do conflito, uma alta de quase 24%. A gasolina também subiu no período, de R$ 6,28 para R$ 6,78 o litro, em média, avanço de 8%. No mercado internacional, o barril do petróleo tipo Brent voltou a se aproximar de US$ 120 após novos desdobramentos da guerra, o que reforçou a preocupação de analistas com novos aumentos caso o conflito continue e afete ainda mais a oferta global.
Por que a guerra no Oriente Médio afeta os combustíveis no Brasil?
O encarecimento do petróleo no mercado internacional pressiona o preço dos derivados no mundo todo, e o Brasil sente esse efeito mesmo sendo produtor de petróleo. Isso ocorre porque parte relevante do diesel consumido no país é importada, e a elevação do Brent aumenta o custo de trazer o produto do exterior.
Além disso, o texto aponta uma defasagem entre os preços praticados internamente e os valores internacionais. Levantamento semanal da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, a Abicom, mostrou que os preços das refinarias da Petrobras ficaram abaixo da paridade de importação. No diesel, a diferença média chegou a cerca de 65% em 24 de março, o equivalente a R$ 2,34 por litro. Na gasolina, a defasagem era de cerca de 45%, ou R$ 1,13 por litro.
Com esse descompasso, importadores privados reduzem a atuação. O BTG Pactual estima que a atividade desses operadores caiu cerca de 60%. Como hoje cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado, a retração dessas empresas eleva a dependência do mercado em relação ao fornecimento da Petrobras.
Quais são os efeitos já observados no abastecimento?
O cenário descrito na reportagem reúne dois riscos centrais: falta de produto e aumento de preços. Em algumas regiões, entidades do setor já relatam dificuldades para manter o abastecimento regular, especialmente para postos independentes e de marca própria.
- No Rio Grande do Sul, levantamento do Sulpetro apontou que 88% dos postos receberam combustíveis apenas de forma parcial.
- No Rio de Janeiro, o Sindcomb relatou instabilidade na entrega e desabastecimento em postos de marca própria.
- Em São Paulo, o Sincopetro afirmou que a rede independente enfrenta problemas de abastecimento e de manutenção do negócio.
Sobre a situação no Rio Grande do Sul, o presidente do Sulpetro, Fabricio Severo Braz, afirmou:
“Desde o início do conflito no Oriente Médio, nas últimas semanas, temos observado compras mais restritas pela maior parte dos postos associados, pois as distribuidoras estão entregando os produtos de forma racionada”.
Já o Sindcomb informou em nota:
“Postos com contrato de fidelidade vêm sendo atendidos com restrições de volume, mas o impacto mais severo recai sobre os postos de marca própria. A falta de fornecimento regular para esses estabelecimentos já resulta em bombas vazias em diversas regiões da cidade”.
Como governo, Petrobras e autoridades reagiram?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote de medidas para estimular o setor e zerar impostos federais sobre o diesel. Também pediu que governadores zerassem o ICMS sobre combustíveis, mas a proposta foi recusada. Na sexta-feira, 28 de março de 2026, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, disse que um número relevante de estados aceitou uma segunda proposta, com auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, com custo dividido entre União e estados.
Ao mesmo tempo, a Petrobras anunciou aumento de oferta e realizou leilões para vender parte de sua produção em regiões com maior pressão de abastecimento. Segundo análise do Banco do Brasil mencionada pela reportagem, nesses leilões os combustíveis chegaram a ser vendidos por valores bem acima do preço de referência, com diferença de até R$ 2,65 por litro em áreas do Norte e do Nordeste.
A Polícia Federal também deflagrou uma operação em 11 estados e no Distrito Federal para combater preços abusivos de combustíveis, em meio à escalada das cotações e às queixas do setor.
Qual é o impacto esperado sobre inflação e juros?
Analistas ouvidos na reportagem afirmam que o petróleo passou a ocupar papel central nas projeções para a economia brasileira. O BTG Pactual avalia que a alta da commodity pode afetar não só a inflação, mas também as decisões sobre a taxa básica de juros, a Selic. O Banco Central já indicou preocupação com a guerra no Oriente Médio ao mencionar o conflito quatro vezes no comunicado da reunião de março do Copom, que reduziu a Selic para 14,75% ao ano e deixou de sinalizar novos cortes.
“Embora a recomendação padrão de política monetária nesses casos seja reagir apenas aos efeitos de segunda ordem, a magnitude recente do movimento aumenta o risco de desancoragem das expectativas, de contaminação da inflação subjacente e de maior inércia inflacionária”, dizem analistas do BTG Pactual, segundo a reportagem.



