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Combustíveis fósseis: indústria financia livro para influenciar crianças

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Ilustração de mãos de crianças folheando livro colorido sobre energia, com ícones de óleo e símbolos de reciclagem.
Foto: jonathan mcintosh / flickr (by)

A indústria de combustíveis fósseis está utilizando literatura infantil para tentar melhorar sua imagem pública junto às novas gerações. Um novo livro ilustrado, lançado em abril de 2026, retrata as fontes de energia poluidoras como personagens incompreendidos, gerando intensos debates sobre as táticas de relações públicas do setor energético global — um tema relevante para o Brasil, que vive seu próprio debate sobre o papel de petroleiras na transição energética nacional.

De acordo com informações da CleanTechnica, a obra intitulada “Our Hidden Powers: The Big Switch” foi criada por Kristina Hagström Ilievska, diretora de marketing da Baseload Capital. A empresa sueca, focada em projetos geotérmicos, tem como acionistas gigantes da extração de petróleo e gás natural, como a Chevron e a Baker Hughes.

Como o livro retrata a crise climática global?

O livro apresenta um personagem central chamado Fossi, representado visualmente como um redemoinho de fumaça cinza que é frequentemente evitado por seus colegas de classe. Os outros personagens o acusam de ser o responsável direto pela crise climática, o que o deixa profundamente frustrado e na defensiva ao longo da história.

Na narrativa, o personagem exige reconhecimento pelos avanços industriais antes de oferecer sua vasta experiência para ajudar na transição energética. O texto original contém o seguinte desabafo da figura animada:

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Você queria viajar, construir, iluminar o mundo. E eu te ajudei! Nós, combustíveis fósseis, demos a você calor, carros, luzes e fábricas. E agora você diz que é tudo culpa minha?

Qual é a crítica dos especialistas em meio ambiente?

Especialistas argumentam que a publicação atua como uma ferramenta para manter a aceitação social das empresas poluidoras. O enredo é comparado a antigas campanhas publicitárias da indústria do tabaco, que historicamente focavam na atração de crianças e adolescentes para garantir a sobrevivência comercial de seus modelos de negócios a longo prazo.

A cientista e ex-funcionária da ExxonMobil, Lindsey Gulden, critica veementemente a abordagem simpática dada aos agentes poluidores na obra literária.

Este livro acerta em muitas coisas. Mas a ideia de que os combustíveis fósseis são o ‘novo’ garoto que merece simpatia é quase risível. As empresas de combustíveis fósseis estão trabalhando duro para manter seu lugar à mesa e atrasar uma transição energética robusta.

O diretor de criação do Greenpeace Nordics, Gustav Martner, reforçou o coro crítico. Ele destacou que a indústria petrolífera tem bloqueado e atrasado ações climáticas globais de forma persistente, operando de maneira contrária à colaboração e ao entusiasmo fictício sugerido pelas páginas do livro infantil.

O que dizem os criadores da obra infantil?

A autora defende que o objetivo central da publicação é explicar a transição da matriz de energia de forma compreensível para o público infantil. Segundo ela, a história foca estritamente na mudança necessária e não na defesa do modelo atual de extração, argumentando que apontar dedos não ajuda na resolução da emergência climática.

O diretor executivo da organização sueca, Alexander Helling, afirmou publicamente que a mensagem também visa mostrar a investidores e formuladores de políticas públicas como a energia limpa pode aproveitar o conhecimento tecnológico do setor fóssil. Tecnologias de perfuração profunda, por exemplo, estão sendo adaptadas com sucesso para criar sistemas geotérmicos avançados na Alemanha.

Quais outras táticas o setor petroleiro utiliza?

A tentativa de influenciar a juventude não é um caso isolado, fazendo parte de uma estratégia muito mais ampla e amplamente documentada por investigadores de mercado do setor energético:

  • A empresa norueguesa Equinor, que possui forte atuação no mercado de óleo e gás do Brasil, patrocinou salas de aula de ciências na Escócia, exatamente no mesmo período em que buscava aprovação do governo para explorar um novo campo de petróleo nas proximidades.
  • A mesma companhia escandinava criou e distribuiu um jogo de videogame interativo voltado especificamente para estudantes britânicos em idade escolar.
  • Na Austrália, a multinacional Shell — que também é uma das principais petroleiras privadas atuando no pré-sal brasileiro — investiu cerca de US$ 7 milhões para financiar programas educacionais infantis dentro de um museu, omitindo estrategicamente o papel central dos hidrocarbonetos no processo de aquecimento global.

Documentos internos de marketing dessas grandes corporações revelam que a juventude é vista como um elemento crucial para a sobrevivência mercadológica do setor. O foco nas crianças visa, em última análise, construir futuros bancos de talentos corporativos e garantir permissões sociais duradouras para operar em um cenário de crescente sensibilidade pública em relação aos desastres ambientais.

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