O colapso do Banco Master e a prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, atingiram em cheio a BeFly, holding de turismo que se tornou uma das maiores do país ao adquirir 36 empresas do setor. O impacto ocorre em São Paulo, onde a empresa mantém suas principais operações, em meio a investigações que avançam desde o fim de 2025, após fraudes bilionárias reveladas pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal.
De acordo com informações do UOL Notícias, o crescimento agressivo da BeFly foi impulsionado por fundos ligados ao banco liquidado, especialmente o B10 e o TT. Marcelo Cohen, fundador e presidente da holding, afirma que o Master não possuía participação societária na empresa.
O que diz Marcelo Cohen sobre a relação com o Banco Master?
Por meio de sua assessoria, Cohen informou que o Master atuou apenas como parceiro financeiro, por meio de linhas de crédito contratadas entre 2021 e 2022, em conjunto com recursos próprios da operação. Segundo a nota, a BeFly segue honrando regularmente seus compromissos financeiros.
A BeFly nasceu em 2021, quando Cohen, dono da Belvitur, anunciou a compra da Flytour, tradicional agência de turismo corporativo que enfrentava forte endividamento por causa da pandemia de Covid-19. Depois vieram aquisições como a Queensberry, do turismo de luxo, a STB, do segmento de intercâmbio, e o hotel Botanique, em Campos do Jordão, em associação com Vorcaro.
Qual o tamanho da BeFly e quantas empresas foram adquiridas?
A holding chegou a projetar faturamento superior a R$ 10 bilhões para 2023. Atualmente, emprega 2,3 mil funcionários e atende oito mil clientes corporativos, além de embarcar milhares de passageiros por mês. No total, foram cerca de 36 marcas incorporadas em pouco mais de dois anos.
A aquisição da Flytour, fundada por Eloi D’Avila de Oliveira, está em disputa extrajudicial na Câmara de Arbitragem de São Paulo desde dezembro de 2025. A primeira sessão arbitral ocorreu em 26 de março de 2026. Oliveira, que acompanha o caso de Portugal, onde trata de questões de saúde na família, não pode se manifestar sobre detalhes devido a cláusula de confidencialidade.
“Temos cláusula de confidencialidade. Não posso disponibilizar qualquer informação sobre a venda do Grupo Flytour e o fundo B10.”
O fundo B10, que aparece no contrato de compra da Flytour sob o nome anterior de Otisu, está no centro das investigações. Administrado pela Trustee, o veículo é alvo de apurações ligadas a Daniel Vorcaro e também foi citado na Operação Carbono Oculto, que investiga suposta atuação com recursos de alvos ligados ao PCC, facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios brasileiros.
Como a pandemia favoreceu a estratégia de Cohen?
Enquanto o setor de turismo enfrentava aeroportos fechados e falências em massa, a BeFly aproveitou a crise para adquirir empresas endividadas. Executivos do mercado ouvidos pela reportagem afirmam que, após o escândalo do Master, a consolidação promovida por Cohen passou a ser vista como uma estratégia favorecida por recursos de origem questionada.
Em entrevista concedida em outubro de 2024 ao programa Papo Íntimo, Cohen explicou sua visão: “Peguei o capital que tinha e minhas economias de fora, vou para o tudo ou nada neste projeto. Trouxe o Banco Master, que é um parceiro meu hoje, para fazer investimento junto comigo. Compramos 36 empresas em 30 meses.”
Para os 2,3 mil colaboradores e milhares de clientes, a principal dúvida é se a operação conseguirá se separar das investigações que envolvem o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente junto com seu cunhado Fabiano Zettel sob acusação de fraude bilionária, emissão de títulos sem lastro e manutenção de sistema de monitoramento para intimidar adversários.
A relação entre Eloi D’Avila de Oliveira e os novos controladores da Flytour mudou drasticamente. Em 2020, com dívidas de R$ 350 milhões, o fundador via na venda uma salvação para seu legado de cinco décadas. Hoje, o passivo da empresa está em recuperação extrajudicial e é objeto de arbitragem.

