Um mês após as fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, moradores de áreas afetadas ainda relatam perdas, insegurança e falta de respostas claras sobre os próximos passos. Segundo a prefeitura, cerca de 8 mil pessoas seguem desabrigadas e 65 morreram desde a noite de 23 de fevereiro, quando deslizamentos e alagamentos atingiram a cidade. De acordo com informações da Radioagência Nacional, famílias de comunidades como Três Moinhos e Jardim Parque Burnier continuam à espera de medidas concretas para moradia, circulação e retomada da renda. O caso se insere em um cenário recorrente no Brasil, onde chuvas intensas costumam acionar estruturas municipais, estaduais e federais de resposta, com reconhecimento de emergência ou calamidade para liberar apoio público.
Entre os relatos está o de Gilvan Leal, de 55 anos, morador da comunidade Três Moinhos. Ele contou que escapou de entrar em casa instantes antes de a lama descer e destruir a estrutura. Desde então, dorme em uma garagem praticamente descoberta, teve o carro danificado e afirma que sua principal preocupação é com a casa, considerada inabitável e sob risco de desabar.
“No que eu ia entrar aqui para poder pegar uns documentos, aí minha irmã falou assim: ‘não entra não, Gilvan’. Aí me segurou, não entrei. Na hora que eu pensei em entrar, que eu dei dois passos, desceu tudo com lama lá de cima lá, arrebentou tudo aí”.
Gilvan disse ainda que não busca apenas um repasse financeiro imediato, mas uma solução definitiva para o imóvel. Com problema no coração, ele afirma que não pode fazer esforço, embora continue realizando alguns trabalhos pontuais como pedreiro.
“Eu não quero nem dinheiro deles não, que vai me dar R$ 700, vai me dar R$ 1.200. Eu só quero uma solução para chegar, vem a máquina, derruba esse troço aqui que eu vou fazer meu barraco e vou continuar minha casa. É isso que eu quero”.
Por que os moradores dizem que a situação continua crítica?
Além da destruição das moradias, muitos moradores relatam dificuldades para retomar a rotina e o trabalho. A feirante Kasciany Pozzi, também moradora de Três Moinhos, perdeu um tio na tragédia, teve a casa interditada e afirma que a renda da família ficou comprometida. Ela trabalha com venda de cana-de-açúcar, mas diz que perdeu grande parte da produção após os alagamentos.
Segundo Kasciany, os problemas de acesso também impedem a retomada das atividades. A Kombi usada no trabalho permanece atolada, e a rua, de acordo com ela, ainda não foi liberada para a circulação de veículos, o que inviabiliza o transporte da mercadoria.
“Muita cana jogada fora. Não só perdas materiais, mas perda financeira, que é o único ganho que a gente tem, são as canas. Então, o caminhão não consegue sair, a kombi está atolada. Então é a renda que a gente tem, agora a gente está sem renda nenhuma porque a prefeitura não libera a rua. Então tem que liberar a rua para os carros. Como é que o caminhão vai sair, voando?”
Os relatos reunidos pela reportagem apontam, em comum, dúvidas sobre as providências das autoridades e reclamações sobre falta de orientação clara. Em desastres desse tipo, o reconhecimento oficial da situação por órgãos públicos é uma etapa importante para destravar recursos e medidas de assistência, mas moradores entrevistados dizem não saber exatamente quais providências serão adotadas para suas casas e bairros.
O que dizem os dados e as autoridades sobre o desastre?
De acordo com dados do Cemaden, Juiz de Fora é o quinto município do país que mais registra desastres naturais e está entre as cidades com maior população residente em áreas de risco. O Cemaden é o órgão federal responsável por monitorar ameaças como deslizamentos e inundações no país. O volume de chuva registrado no episódio foi considerado extremo, equivalente a cerca de um terço da média esperada para todo o mês de dezembro.
No Jardim Parque Burnier, a aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, disse que a família precisou deixar a casa na noite de 23 de fevereiro. Segundo ela, os moradores não sabiam que o local era classificado como área de alto risco e agora vivem sob incerteza sobre o futuro.
“A gente nunca ficou sabendo que aqui era área de alto risco. E agora, de repente, fala que é área de alto risco, vem demandando a gente sair assim, sair com a roupa do corpo. A moça que mora por cima da minha casa saiu porque está toda trincada a casa dela. Quer dizer, se a dela cair, põe a minha em risco. Então por isso que a gente teve que sair e estamos aguardando aqui para fazer nova avaliação, se vai ter que sair mesmo, o que que vai ser feito da vida da gente”.
Em nota, o governo federal informou que foi decretado estado de calamidade pública para Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá. Dez dias depois, a classificação foi reavaliada e rebaixada para situação de emergência, segundo critérios técnicos. A nota também destacou o trabalho do Gabinete de Crise instalado na Prefeitura de Juiz de Fora e mencionou acesso a auxílio federal estimado em cerca de R$ 7.300. No sistema brasileiro de defesa civil, tanto a situação de emergência quanto o estado de calamidade permitem solicitar apoio da União, embora com enquadramentos administrativos diferentes.
- Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá tiveram calamidade pública decretada inicialmente;
- Após dez dias, a classificação foi rebaixada para situação de emergência;
- O governo federal citou auxílio estimado em cerca de R$ 7.300;
- A prefeitura de Juiz de Fora elabora projeto de lei para auxílio financeiro municipal a moradores e comerciantes atingidos.
Quais respostas foram apresentadas pelos municípios?
A Prefeitura de Juiz de Fora afirmou que as ações seguem critérios técnicos, com prioridade para preservação de vidas, e que as equipes permanecem mobilizadas no atendimento às famílias, no monitoramento das áreas de risco e na recuperação gradual da cidade. Já a Prefeitura de Matias Barbosa declarou que busca novos recursos e implementa medidas para normalizar a vida no município, após visitas técnicas com representantes do Ministério das Cidades.



