O carnavalesco e comentarista Milton Cunha comandou uma aula-show sobre a história do Carnaval para abrir a trigésima quarta edição do Festival de Curitiba, um dos principais eventos de artes cênicas do país. Realizado na Pedreira Paulo Leminski, tradicional espaço de shows ao ar livre na capital do Paraná, o espetáculo intitulado “Samba: as escolas e suas narrativas” combinou apresentações musicais com discursos de caráter político e social sobre a valorização das agremiações carnavalescas no Brasil.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o evento atraiu um grande público que lotou o complexo cultural, inclusive com espectadores utilizando adereços típicos da folia. A apresentação contou com um elenco de 45 pessoas, reunindo passistas, baianas, mestres-salas, porta-bandeiras e ritmistas de bateria.
Como ocorreu a estruturação do espetáculo sobre o Carnaval?
O formato escolhido para a abertura da mostra teatral permitiu que o comentarista dividisse o palco com grandes nomes da festa popular. Entre os convidados de destaque estavam Mestre Ciça, homenageado pela Unidos do Viradouro (escola de Niterói, RJ), e Squel Jorgea Ferreira, reconhecida porta-bandeira da Portela. Durante a condução, os microfones permaneceram abertos para que os integrantes compartilhassem suas trajetórias nas comunidades.
O tom discursivo adotado abordou as raízes históricas e raciais do ritmo brasileiro. Durante sua fala de abertura, o apresentador relembrou a resistência da população negra ao longo dos séculos de história do país.
Tudo começa na negritude, no tambor. Os negros sofreram quatro séculos de terror, mas não se entregaram.
Quais foram as principais reivindicações feitas pelos sambistas?
A busca por fomento financeiro e respeito institucional marcou diversos momentos do show. O diretor artístico provocou reflexões sobre a discrepância no repasse de verbas públicas para diferentes segmentos culturais, questionando a falta de orçamento garantido para as agremiações em comparação aos recursos destinados anualmente às orquestras sinfônicas.
Os discursos também deram voz a diferentes grupos sociais que constroem a festa. Representantes femininas utilizaram o espaço para manifestos contundentes. Luara Bombom, rainha de bateria da agremiação carioca Mocidade Unida do Santa Marta, defendeu que seu corpo é um instrumento de trabalho e protestou contra a violência de gênero e o feminicídio. Por sua vez, Nilce Fran, vice-presidente da Portela, exigiu reconhecimento para as mulheres mais velhas do samba.
Se eu for morrer de amor, que seja no samba. Se eu cheguei aqui, as meninas também podem.
O que as novas gerações e agremiações locais apresentaram no evento?
Além de exaltar a tradição histórica, a aula-show abriu espaço para performances que rompem com padrões convencionais. A apresentação contou com a participação de Gustavo Siqueira, da Mocidade Alegre, tradicional escola de São Paulo, que ganhou notoriedade por sua performance utilizando sandálias de salto alto, desafiando normatividades de gênero na passarela.
O repertório musical intercalou clássicos com composições recentes. Entre os destaques apresentados, o público acompanhou os seguintes momentos:
- A execução do samba-enredo “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, clássico da Império Serrano de 1982.
- A exibição da obra “Bembé”, cantada pela Beija-Flor de Nilópolis em desfiles recentes.
- A participação da escola curitibana Deixa Falar, atual campeã municipal, que subiu ao palco na reta final.
Como o projeto de abertura curitibano foi idealizado?
A integração entre os artistas do Rio de Janeiro e o público paranaense nasceu a partir de uma vivência direta nas quadras cariocas. Fabíula Passini, uma das diretoras do festival, inspirou-se ao visitar a quadra do Acadêmicos do Salgueiro. Acompanhada pelo comunicador Pedro Neves, a diretoria decidiu transformar a tradicional abertura em um baile popular.
O evento paranaense de artes cênicas oferece atividades diversificadas e se estende até o dia 12 de abril de 2026. As atrações estão distribuídas por vários espaços de Curitiba e região metropolitana, contando com opções gratuitas e ingressos pagos que variam de R$ 42,50 a R$ 85.
