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Carmen Stephan lança livro sobre malária narrado por mosquito e vai à Flip

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A escritora alemã Carmen Stephan apresentará ao público brasileiro a obra Malária: Um Romance durante a edição de 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O livro, publicado originalmente na Alemanha no ano de 2012, chega ao Brasil em 2026 pela editora Tinta-da-China Brasil. A publicação relata a experiência de quase morte da autora após ser infectada pelos parasitas do gênero Plasmodium (protozoários causadores da doença) durante uma viagem pela Amazônia no ano de 2003.

De acordo com informações da Folha de S.Paulo, a narrativa apresenta uma peculiaridade estrutural que chama a atenção: a história completa é contada sob a perspectiva da fêmea do mosquito Anopheles, o inseto vetor responsável por abrigar e realizar a transmissão da doença — que é endêmica na região Norte do país — para os seres humanos.

Como surgiu a ideia de colocar o mosquito como narrador da história?

A concepção literária inovadora nasceu durante o período de internação hospitalar da escritora no Rio de Janeiro. A saúde da jornalista estava severamente debilitada após profissionais médicos confundirem os sintomas iniciais da malária com os da dengue, transmitida pelo Aedes aegypti. Ao finalmente ouvir o diagnóstico correto de sua real condição, a paciente relata que voltou seus pensamentos de forma imediata para o inseto.

Quando estava no hospital, já muito debilitada, e ouvi o médico falando a palavra malária, pensei imediatamente no mosquito. Primeiro, com uma certa raiva: ‘ah, seu maldito’. Mas o próximo pensamento foi: ‘Nossa, não estou sozinha nessa história. Tem alguém diretamente ligado, pelo sangue. Será que esse mosquito ainda está vivo?

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A elaboração do livro exigiu um longo tempo de maturação emocional e técnica. Passaram-se entre seis e sete anos até que a alemã, que atualmente reside na Bahia, reunisse condições para transformar o evento traumático em literatura de ficção. O processo terapêutico e criativo envolveu a necessidade de retornar a Manaus (AM), Belém (PA) e à Ilha do Marajó (PA) com o intuito de ressignificar as memórias da viagem que originou a infecção.

Quais são os principais aspectos históricos abordados no livro sobre a malária?

A narradora microscópica do romance não se limita a acompanhar detalhadamente a jornada de agonia e recuperação de sua paciente humana. A fêmea de Anopheles também ironiza a extrema vulnerabilidade de nossa espécie e realiza resgates históricos essenciais sobre o desenvolvimento das pesquisas globais relacionadas à enfermidade. A obra intercala a trajetória da protagonista humana com os seguintes marcos e curiosidades do campo científico:

  • A origem do termo de língua italiana “mal’ aria”, que significava literalmente “ar ruim”, devido à crença consolidada na Antiguidade de que a doença era originada e disseminada pelos vapores úmidos exalados por pântanos.
  • A teoria científica equivocada do ano de 1879, liderada pelos pesquisadores Edwin Klebs e Corrado Tommasi-Crudeli, que associava a severa infecção à bactéria Bacillus malariae após testes clínicos realizados em coelhos.
  • A observação pioneira e decisiva dos plasmódios em território da Argélia pelo médico francês Alphonse Laveran durante a década de 1880.
  • A comprovação laboratorial pelo médico britânico Ronald Ross, no ano de 1897 na Índia, de que os parasitas habitavam as paredes do estômago do mosquito fêmea, fato revolucionário que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina no ano de 1902.

Como a autora lida com as memórias físicas do trauma na atualidade?

A confecção e revisão das páginas de “Malária: Um Romance” representaram não apenas um intenso mergulho no próprio passado de dor, mas também o nascimento efetivo de Carmen Stephan como autora de ficção. Durante o complexo processo de escrita do manuscrito, a autora relatou ter sentido manifestações físicas e sintomas corporais incrivelmente similares aos da própria infecção real, como fortes calafrios e picos de febre intermitentes, evidenciando a profundidade da memória celular e corporal.

Foi o animal que quase me matou e, ao mesmo tempo, foi ele que possibilitou esse livro, que possibilitou uma nova história, porque me transformou profundamente —e também antes desse livro eu não era escritora. Foi a primeira obra de literatura mesmo. E o mosquito não escolhe, ele é usado pelos parasitas, que só querem sobreviver. Então, não tem maldade.

A confirmada participação na programação oficial da Flip simboliza o fechamento definitivo de um longo ciclo pessoal e profissional. A escritora europeia já havia sido convidada formalmente para a edição do ano de 2016 do aclamado festival fluminense em Paraty (RJ), mas foi estritamente impedida de realizar a viagem aérea devido à fase avançada da gravidez de sua filha. Com a tradução concluída e impressa no Brasil em 2026, a obra biográfica ganha seu devido espaço de destaque no principal evento literário do país.

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