O aumento da carga no Sistema Interligado Nacional acendeu um alerta no Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para a transição entre o período seco e o período úmido, segundo declarações do diretor de Planejamento do órgão, Alexandre Zucarato, nesta sexta-feira, 10 de abril, durante o Fórum Brasileiro de Líderes em Energia, no Rio de Janeiro. Embora as chuvas de março tenham ajudado a equilibrar os reservatórios, o cenário de recursos energéticos e de potência tende a se parecer com o do ano passado, mas com uma carga maior, em crescimento de cerca de 3 GW por ano. De acordo com informações da Megawhat, a principal preocupação está no atendimento da demanda de ponta caso o período chuvoso atrase.
Zucarato afirmou que, após um começo ruim do período úmido, as precipitações de março levaram os reservatórios a uma condição hidroenergética semelhante à observada na mesma época de 2025. Ainda assim, ele destacou que o desafio operacional não se limita ao armazenamento de água, mas também à oferta de potência para atender os horários de maior consumo.
“O jogo hidroenergético é parecido, [mas] o jogo de potência é um pouco mais desafiador”.
“O atendimento da ponta, que hoje é a principal dificuldade da operação, é muito dependente da disponibilidade hídrica, que por sua vez é muito dependente se começa a chover em outubro ou se começa a chover em dezembro”.
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Por que o atraso das chuvas preocupa a operação do sistema?
Segundo o diretor do ONS, a chuva influencia não apenas os níveis dos reservatórios, mas também as temperaturas e, por consequência, o consumo de energia. Entre outubro e dezembro, a carga sobe naturalmente com a chegada da primavera e do verão, sobretudo no horário de ponta. Se o período chuvoso demora a começar, as ondas de calor podem elevar ainda mais essa demanda.
“De outubro a dezembro, a carga começa a subir naturalmente [em função da chegada da primavera e verão], principalmente a carga de ponta. Se o período chuvoso atrasa, você tem onda de calor e essa conta fica mais alta ainda. Só que sem chuva você tem menos potência hidráulica disponível”.
Na prática, a combinação entre calor mais intenso e menor disponibilidade hídrica pressiona o sistema em um momento sensível do calendário elétrico. O alerta, portanto, não se concentra apenas na energia armazenada, mas na capacidade de atender os picos de consumo.
O que o ONS disse sobre a necessidade de novas usinas de potência?
Na saída do evento, em entrevista a jornalistas, Zucarato também comentou a necessidade de contratação de potência prevista no leilão de reserva de capacidade na forma de potência, o LRCap. Embora o ONS não participe diretamente dos trâmites do certame, o diretor afirmou que o sistema precisa dessa potência adicional.
“O PEN [Plano da Operação Energética] do ano passado mostrou que, desconsiderando as termelétricas que não têm contrato no sistema, a gente está, desde esse ano, violando os critérios de suprimento”.
O leilão foi alvo de pedido de reconsideração da Âmbar em processo na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O pedido foi rejeitado pelas áreas técnicas e seguiu para apreciação da diretoria. Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) abriu processos para apurar irregularidades apontadas pelo Ministério Público junto ao órgão após a realização do LRCap em 18 de março.
Mesmo com todas as usinas existentes sendo consideradas, Zucarato avaliou que ainda há um espaço importante a ser preenchido por novos empreendimentos. Ele também citou pressão na cadeia de suprimento para novas usinas e sistemas de transmissão, em meio à corrida global por potência para atender ao avanço da demanda de data centers.
Quais fatores, segundo Zucarato, aumentam o risco para o suprimento?
Entre os pontos destacados pelo diretor do ONS, estão:
- crescimento da carga em cerca de 3 GW por ano;
- dependência da disponibilidade hídrica para o atendimento da ponta;
- risco de atraso no início do período chuvoso;
- pressão global sobre a cadeia de suprimentos de geração e transmissão;
- possibilidade maior de atraso do que de antecipação na entrada em operação de termelétricas.
“Quanto mais você prorroga a decisão de investimento, mais a gente fica exposto”.
“E se a gente pegar o track record de quanto foi o prazo de construção das últimas termelétricas contratadas, a gente vai ver que a probabilidade de atraso na entrada de operação é muito maior do que a probabilidade de antecipação”.
As declarações reforçam a avaliação de que a situação dos reservatórios, embora mais equilibrada após as chuvas de março, não elimina os desafios do sistema elétrico nos próximos meses. Para o ONS, a combinação entre crescimento da demanda, incerteza climática e demora em decisões de investimento pode ampliar os riscos para o suprimento de potência no país.