O capital suíço utilizou a repressão a sindicatos e o congelamento de salários promovidos pela ditadura militar no Brasil para alavancar lucros entre as décadas de 1960 e 1970. Beneficiadas por isenções fiscais e um ambiente sem greves, multinacionais europeias pagavam aos trabalhadores brasileiros uma fração do que era repassado aos operários na Europa. De acordo com reportagem publicada pela Agência Brasil no início de abril de 2026, a neutralidade do país europeu contrastou com o forte apoio econômico e a exploração comercial do regime autoritário brasileiro.
Em dezembro de 1970, o então presidente da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (Swisscam), Anton Von Salis, justificou os baixos salários no Brasil em entrevista à emissora pública suíça RTS. O empresário alegou que as necessidades climáticas e habitacionais brasileiras permitiam remunerações inferiores às praticadas no continente europeu.
Como a política salarial da ditadura favoreceu o capital estrangeiro?
Um estudo conduzido pela pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, revelou o impacto financeiro das políticas da ditadura para as 14 maiores multinacionais suíças instaladas no Brasil em 1971. A pesquisa documenta que o salário de um trabalhador sem qualificação no Brasil equivalia a apenas um quinto da remuneração de um operário suíço na mesma função.
No livro ainda inédito em português, a autora detalha os fatores que atraíram as corporações estrangeiras para o território nacional:
- Isenção de impostos na primeira década de instalação;
- Ausência de tributação sobre a remessa de lucros;
- Criminalização de sindicatos e movimentos sociais;
- Congelamento de salários imposto pelo governo militar.
A pesquisadora descreve o cenário econômico e político da época como altamente favorável às matrizes internacionais:
As empresas suíças aproveitaram tudo que a ditadura tinha a oferecer. Não pagavam impostos nos dez primeiros anos , não pagavam impostos sobre a remessa de lucros e tem a questão da mão de obra, o clima de ‘paz social’, o ‘gelo’ de salário, movimento operário fraco, criminalização do movimento social, da oposição, da esquerda, dos sindicatos, do movimento estudantil. Tudo isso, dava confiança no parceiro brasileiro.
Qual foi o volume de investimentos da Suíça no Brasil?
A combinação de opressão política e vantagens econômicas colocou a Suíça entre os quatro maiores investidores no Brasil até o final da década de 1970, atrás apenas de Estados Unidos, Alemanha e, em alguns momentos, Japão. No entanto, em termos proporcionais à população, a Suíça liderou os aportes estrangeiros, registrando uma média de 187 dólares per capita — um montante oito vezes maior que o investimento alemão.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marco Antônio Rocha, explica que o achatamento salarial foi uma das primeiras ações estruturais do regime instaurado em 1964:
O que o governo fez foi modificar a política de indexação do salário mínimo frente à inflação. Com uma inflação já bem elevada, isso significou que o salário mínimo ficou muito defasado de forma muito rápida. Em um a dois anos, ele perdeu cerca de 50% do poder de compra.
Essa defasagem gerou dividendos expressivos. Apenas em 1971, as operações das 14 principais empresas suíças no Brasil renderam cerca de 80 milhões de francos suíços decorrentes da economia com a folha de pagamento da classe operária. Dois anos depois, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) suíço alcançou 1,1 bilhão de francos suíços, saltando para 2,3 bilhões em 1977, com forte presença nos setores de alimentação, petroquímica, metalurgia, farmacêutica e financeiro.
Por que o embaixador suíço foi sequestrado no Brasil?
O aprofundamento das relações comerciais ocorreu em paralelo ao aumento da tensão política interna. Em sete de dezembro de 1970, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, foi sequestrado no Rio de Janeiro. A ação foi coordenada por Carlos Lamarca, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
O diplomata permaneceu 40 dias em cativeiro e foi libertado mediante a soltura de 70 presos políticos, que seguiram exilados para o Chile. À época sob o governo de Salvador Allende, o país sul-americano atuava como um dos principais refúgios para opositores do regime militar brasileiro. A captura de representantes consulares foi uma tática recorrente dos grupos armados de oposição. Além do representante suíço, embaixadores dos Estados Unidos e da Alemanha, bem como o cônsul do Japão — países que lideravam os investimentos no Brasil — também foram alvos de sequestros entre 1969 e 1971.
Procurado recentemente para comentar as relações históricas, o governo da Suíça declarou por meio de sua embaixada que uma resposta detalhada exigiria pesquisas históricas profundas que fogem do escopo imediato da administração federal, mas ressaltou que apoia estudos independentes sobre o tema. A Swisscam, por sua vez, não autorizou o acesso aos seus arquivos nem respondeu aos questionamentos levantados pela reportagem.



