A fabricante de veículos comerciais Harbinger contrariou as expectativas do mercado automotivo ao registrar o dobro de vendas de seus caminhões elétricos no quarto trimestre do ano passado, logo após o fim dos subsídios federais nos Estados Unidos. A expansão acelerada da empresa com sede no estado da Califórnia, que iniciou sua produção em larga escala apenas no mês de abril, ocorre em um cenário turbulento de alta nos preços dos combustíveis e de mudanças profundas na política fiscal do país norte-americano.
De acordo com informações da CleanTechnica, a montadora superou o desempenho geral da indústria e de todos os seus concorrentes diretos somados. O crescimento contínuo das comercializações reforça o interesse do setor logístico no segmento de veículos de médio porte, conhecidos tecnicamente como Classes quatro a seis.
Por que as vendas de caminhões elétricos da Harbinger cresceram tanto?
O sucesso da Harbinger está diretamente ligado à sua estratégia em um mercado onde grandes fabricantes, como a Tesla, ainda não possuem operações de produção ativa. Dados do International Council on Clean Transportation mostram que, no primeiro semestre de 2024, apenas 165 caminhões de emissão zero de médio porte foram registrados nos Estados Unidos, revelando um segmento altamente fragmentado e com enorme espaço para novos competidores. Em todo aquele ano, de acordo com a S&P Global, somente 460 unidades elétricas dessas classes ganharam as ruas.
Diante deste cenário, a startup ganhou uma vantagem inicial significativa ao desenvolver chassis totalmente personalizáveis. O impulso de negócios contou com o forte apoio financeiro da multinacional de logística FedEx e de corporações como a THOR Industries. A gigante global de entregas de encomendas, que assumiu o compromisso público de eletrificar toda a sua frota de coleta e distribuição até o ano de 2040, encomendou 53 chassis de caminhões elétricos da marca.
A transportadora também liderou uma rodada de investimentos da Série C avaliada em US$ 160 milhões para a fabricante, juntamente com o Technology Impact Fund da Capricorn. O fundo atraiu outras empresas de peso, incluindo a divisão de capital de risco da Volkswagen e The Coca-Cola System Sustainability Fund. No acumulado do último ano, a startup negociou 733 veículos comerciais, faturando cerca de US$ 87 milhões.
Esta combinação perfeita de desempenho, preço e resiliência operacional é o que precisamos para continuar crescendo em escala
, afirmou o vice-presidente sênior de segurança e transporte da FedEx.
Como as mudanças nas leis fiscais afetaram as frotas de logística?
A extinção do crédito tributário federal, que concedia incentivos de US$ 7.500 para carros e até US$ 40.000 para veículos comerciais ecológicos, entrou em vigor no final do mês de setembro. O corte foi determinado por uma nova legislação patrocinada e aprovada pela gestão do presidente Donald Trump no congresso nacional. A medida causou uma queda imediata e severa nas vendas gerais de automóveis elétricos de passeio.
No entanto, o cenário macroeconômico global acabou forçando as corporações de logística a manterem o foco absoluto na transição energética. Após o governo americano deflagrar um conflito no exterior no final do mês de fevereiro, os preços do óleo diesel e da gasolina dispararam. Com os combustíveis atingindo valores históricos nas bombas, a viabilidade econômica das plataformas eletrificadas de carga se consolidou de maneira definitiva para os operadores logísticos.
Quais os benefícios financeiros reais na troca por um modelo de bateria?
A conta exata sobre o impacto financeiro da mudança de frota foi demonstrada publicamente pelo cofundador da fabricante de caminhões, John Henry Harris. Baseado no alto custo das operações de entregas no estado da Califórnia, o executivo detalhou o fluxo de caixa gerado pela simples eliminação do óleo diesel das garagens, considerando rotas diárias calculadas em cerca de 60 milhas.
O demonstrativo elaborado pela diretoria da companhia ressalta os seguintes resultados diretos na ponta da operação comercial das empresas de transporte:
- Um caminhão a diesel consome em média sete galões e meio por dia em uma rota padrão.
- O custo anual desse combustível na Califórnia atinge mais de US$ 18.100 por veículo.
- O furgão eletrificado gasta pouco menos de um quilowatt-hora a cada milha rodada no trajeto comercial.
- A despesa anual com energia elétrica para essa mesma distância despenca para cerca de US$ 3.890.
De acordo com o cálculo contábil apresentado aos investidores, a economia anual cruza a linha dos US$ 14.200 líquidos por cada unidade integrada à frota da transportadora. Esse montante considera apenas o corte direto do gasto nas bombas, deixando de fora os benefícios operacionais secundários gerados pela menor necessidade de manutenção nas oficinas mecânicas. Em trajetos logísticos maiores, desenhados para cem milhas, a retenção de caixa passa de US$ 23.700 ao longo do ano.