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Café no Brasil é ruim? Entenda por que essa ideia perdeu força no mercado atual

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A ideia de que o café de melhor qualidade produzido no Brasil é todo exportado e sobra ao consumidor brasileiro apenas um produto inferior não reflete mais a realidade atual, segundo especialistas do setor ouvidos em reportagem publicada nesta sexta-feira, 28 de março de 2026. De acordo com informações do g1 Economia, essa percepção tem origem principalmente nas décadas passadas, quando havia falhas de fiscalização, tabelamento de preços e fraudes na composição do produto vendido no país.

O pesquisador Sérgio Parreiras, do Instituto Agronômico de Campinas, afirmou que a noção de que apenas o café ruim ficava no Brasil está ultrapassada. Segundo ele, esse quadro pode ter feito sentido nos anos 1980, período em que o mercado nacional tinha pouco estímulo para qualidade e abria espaço para práticas como a mistura de cevada e milho aos grãos.

De onde surgiu a fama de que o café consumido no Brasil era pior?

Segundo a reportagem, nos anos 1980 o governo controlava preços para tentar conter a inflação. Nesse cenário, não havia incentivo econômico para que as empresas diferenciassem produtos de maior ou menor qualidade, já que o valor final ao consumidor era o mesmo. Com isso, produtores direcionavam os melhores grãos para mercados externos, onde recebiam mais.

Além disso, o setor convivia com fiscalização considerada insuficiente. Um artigo do Inmetro, citado pela reportagem, apontava a existência de fraudes, enquanto a própria estrutura estatal da época focava mais em preço e volume do que em padrões de qualidade. Esse ambiente ajudou a consolidar entre os consumidores a impressão de que o café vendido no mercado interno era pior.

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O então presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café, Pavel Cardoso, resumiu esse contexto ao dizer que o antigo Instituto Brasileiro do Café atuava sobre preço e volume. Já uma pesquisa da Abic apontou que, em 1989, 30% do volume comercializado no país era fraudado. Hoje, de acordo com a entidade, esse percentual é inferior a 1%.

O que mudou no controle de qualidade do café no país?

A mudança começou em 1989, quando o governo extinguiu o Instituto Brasileiro do Café e transferiu à Abic a responsabilidade de autorregulamentar o mercado. A associação passou a exigir que os pacotes fossem feitos com 100% de grãos de café e criou o Selo de Pureza para identificar as empresas em conformidade.

Na prática, a Abic passou a realizar auditorias nas empresas associadas e também a recolher amostras em supermercados para verificar a qualidade dos produtos oferecidos ao consumidor. As empresas que não seguiam as regras podiam ser notificadas, advertidas, suspensas ou expulsas do quadro de associados. Nos casos de não associados, a entidade acionava o Ministério Público, segundo a reportagem.

As campanhas publicitárias com Tarcísio Meira também ajudaram a reconstruir a imagem do café no mercado interno. A frase usada nas peças ficou conhecida:

Por trás desse selo, só tem café.

Mais recentemente, em 2022, o Ministério da Agricultura estabeleceu um padrão de qualidade para o café torrado, com entrada em vigor em 2023. As regras proíbem que os pacotes tenham mais de 1% de impurezas e matérias estranhas, além de vetarem elementos como corantes e açúcar.

O café especial ainda é mais exportado do que consumido aqui?

Sim, mas isso não significa que o mercado brasileiro receba apenas produto ruim. A reportagem informa que o segmento de cafés especiais, representado pela Associação Brasileira de Cafés Especiais, surgiu em 1991 e trabalha com grãos 100% maduros e sem defeitos. Por ser um produto mais caro, ele ainda é mais exportado do que vendido internamente.

Segundo o diretor-executivo da BSCA, Vinicius Estrela, o consumo doméstico desse tipo de café cresceu nos últimos anos. Em 2015, apenas 1% do café especial produzido no Brasil era consumido no mercado interno. Hoje, essa parcela está em 15%, de acordo com a reportagem.

  • Nos anos 1980, havia pouco foco em qualidade no mercado interno.
  • Em 1989, a Abic lançou o Selo de Pureza.
  • Em 2022, o Ministério da Agricultura definiu padrão oficial para café torrado.
  • Desde 2023, o produto deve obedecer ao limite de 1% de impurezas e matérias estranhas.

Então é verdade que o café bom vai todo para fora?

De acordo com os especialistas citados na reportagem, não. A ideia persiste no imaginário do consumidor brasileiro por causa de um histórico real de baixa qualidade, fraudes e estoques antigos vendidos no mercado interno décadas atrás. Esse contexto ajudou a consolidar a fama negativa do produto consumido no país.

Hoje, porém, o cenário é outro, com fiscalização mais estruturada, regras técnicas mais claras e expansão do consumo de cafés de qualidade também dentro do Brasil. Isso não elimina o peso das exportações, especialmente no segmento especial, mas enfraquece a tese de que o consumidor brasileiro recebe apenas o café ruim.

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