Um grupo de baleias cachalotes demonstrou um notável trabalho em equipe ao auxiliar o nascimento de um filhote na costa da Dominica, no leste do Caribe. O evento, registrado em 8 de julho de 2023, revelou como as fêmeas adultas cercaram a mãe durante o parto e, logo em seguida, ergueram o recém-nascido para fora da água, permitindo que ele desse suas primeiras respirações. A observação fornece o relato mais detalhado já feito sobre o nascimento de um cetáceo em seu ambiente selvagem natural.
De acordo com informações do UOL Notícias, os dados inéditos foram coletados por pesquisadores do Projeto Ceti. As descobertas fundamentais deste episódio de cooperação animal foram detalhadas em dois artigos científicos publicados recentemente nas revistas acadêmicas Science e Scientific Reports. O trabalho contou com a liderança de especialistas que monitoraram o grupo utilizando equipamentos de áudio e vídeo subaquático. Embora o registro tenha ocorrido no Caribe, a espécie também é encontrada no Atlântico Sul, incluindo áreas da costa brasileira, o que dá relevância ao estudo para pesquisas sobre cetáceos no país.
Como ocorreu o processo de nascimento e apoio ao recém-nascido?
O episódio testemunhado pelos cientistas envolveu um agrupamento de 11 cachalotes. Entre os presentes estavam dez fêmeas, incluindo a mãe do filhote, que media aproximadamente dez metros de comprimento, e um único macho na fase adolescente. O processo completo de nascimento durou 34 minutos, contabilizados desde o momento em que a nadadeira caudal da fêmea gestante surgiu até a completa expulsão do pequeno mamífero marinho.
Imediatamente após o nascimento, o recém-nascido foi levado à superfície em menos de um minuto.
“Observamos um período de cuidado altamente cooperativo logo após o nascimento”, afirmou Alaa Maalouf, integrante do projeto Ceti e autor principal de um dos estudos. “As baleias formaram um agrupamento muito compacto ao redor do recém-nascido, tocando-o repetidamente, apoiando-o com seus corpos e se revezando para erguê-lo e empurrá-lo em direção à superfície. O comportamento de elevação continuou por várias horas”, acrescentou ele.
Por que a ajuda do grupo é vital para a sobrevivência do filhote?
O auxílio imediato de outros membros do grupo é uma questão de vida ou morte para a espécie. Os biólogos explicaram que, nos momentos iniciais de vida, os recém-nascidos são incapazes de nadar de maneira eficiente. Para entender a dimensão do risco envolvido, os pesquisadores apontaram os seguintes fatores cruciais:
- Os recém-nascidos nascem inicialmente imóveis e totalmente indefesos.
- Há uma necessidade urgente de alcançar a superfície para evitar o afogamento imediato.
- O esforço coordenado para manter o filhote fora da água perdura por horas a fio.
- As vocalizações das baleias sofrem mudanças estratégicas e contínuas durante o trabalho de parto.
As características da espécie demandam o suporte de terceiros.
“O nascimento é um momento de alto risco para os cachalotes porque os recém-nascidos são inicialmente imóveis e indefesos, assim como os humanos, e precisam de assistência imediata de outros para alcançar a superfície e dar sua primeira respiração, evitando o afogamento”.
detalhou o biólogo e coautor da pesquisa David Gruber, presidente do Projeto Ceti. Esse comportamento de elevação já havia sido notado em outras espécies marinhas, como orcas, falsas-orcas e belugas, indicando um traço evolutivo que pode remontar a mais de 30 milhões de anos.
O que o comportamento revela sobre a sociedade das baleias?
Uma das maiores surpresas para a equipe científica foi a composição do grupo de apoio. Os cachalotes que cooperaram e ajudaram no parto vieram de dois núcleos familiares distintos, que normalmente vivem separados. Essa integração sugere que a sociedade destes animais transcende os laços de parentesco direto, exibindo um nível elevado de sofisticação cognitiva e social, onde grupos que normalmente se distanciam para buscar alimento se unem em momentos críticos de vulnerabilidade e necessidade de proteção.
Os cachalotes são conhecidos por possuírem estruturas matrilineares complexas, nas quais avós, mães e filhas passam a vida inteira juntas em unidades estáveis para criar as novas gerações de forma cooperativa e se defender de ameaças. Enquanto isso, os machos tendem a deixar o núcleo familiar no início da adolescência para viver de forma solitária, vagando em busca de parceiras. Por conta dessa dinâmica, o biólogo-chefe do projeto, Shane Gero, destacou como surpresa a participação ativa de um macho adolescente neste evento específico de cuidados neonatais.
Com machos podendo atingir até 18 metros e sendo notórios mergulhadores de profundidade que caçam lulas-gigantes, a espécie guarda semelhanças notáveis com a humanidade em termos de desenvolvimento neurológico. No Brasil, estudos e ações de monitoramento de grandes cetáceos ajudam a mapear a presença desses animais no litoral e em águas oceânicas, o que reforça o interesse científico por descobertas sobre comportamento reprodutivo e social da espécie.
“Os cachalotes especificamente compartilham características surpreendentemente semelhantes às dos humanos. Eles têm os maiores cérebros de qualquer espécie e possuem funções superiores como pensamento consciente e planejamento futuro, além de fala e sentimentos de compaixão, amor, sofrimento e intuição”, concluiu Gruber.
O último registro acadêmico de nascimento de cachalotes datava de 1986 e contava apenas com anotações textuais limitadas, o que torna a filmagem recente um marco para a biologia marinha.
