A importação de cacau pelo Reino Unido foi responsável por mais de 2 mil hectares de desmatamento no ano de 2025, concentrando-se principalmente na Costa do Marfim e em Gana. O impacto ambiental gerado pela demanda britânica por chocolate revela uma falha contínua na aplicação de leis ambientais, deixando ecossistemas essenciais da África Ocidental vulneráveis à destruição motivada pelo comércio agrícola.
De acordo com informações do Mongabay Global, os dados são fruto de uma análise exclusiva conduzida pela organização não governamental Global Witness. O estudo aponta que as perdas florestais vinculadas exclusivamente a produtos de chocolate ultrapassaram 8 mil hectares desde 2021. Quando somadas outras commodities, como óleo de palma, soja, carne bovina, café e borracha, a exposição britânica ao desmatamento atinge a marca de 52 mil hectares no mesmo período. O tema atrai a atenção do agronegócio brasileiro, já que o país é um dos principais fornecedores mundiais de soja, carne e café e acompanha de perto o endurecimento dessas regras internacionais.
Por que a legislação britânica ainda não impede o desmatamento?
O governo britânico aprovou a Lei do Meio Ambiente em 2021, com a promessa de eliminar a destruição ilegal de florestas de suas cadeias de suprimentos. No entanto, a eficácia da legislação está severamente comprometida devido à ausência de regulamentações secundárias que detalhem as regras de fiscalização e estabeleçam punições rigorosas para as empresas infratoras.
Atualmente, as diretrizes que instituiriam o regime de devida diligência para commodities de risco florestal permanecem paralisadas. As autoridades não estabeleceram um cronograma oficial para a implementação dessas normas, o que deixa tanto o setor corporativo sem direcionamento legal quanto os consumidores expostos à compra de bens ligados diretamente à degradação climática global.
Qual é o posicionamento da indústria e das organizações ambientais?
Diante do impasse regulatório prolongado, uma coalizão formada por fabricantes de chocolate, redes de supermercados e entidades ambientais organizou recentemente um evento no Parlamento em Londres. O grupo, conhecido como U.K. Cocoa Coalition, reúne grandes corporações do setor alimentício e varejista, além de organizações dedicadas à preservação da biodiversidade e à proteção dos direitos humanos.
A coordenadora da organização não governamental Forest Coalition, Cassie Dummett, destacou a necessidade urgente de segurança jurídica e responsabilidade socioambiental para o mercado internacional.
“Queremos poder comprar chocolate no Reino Unido sem a preocupação de que tenha sido cultivado em terras desmatadas ilegalmente. É um requisito básico que as commodities que compramos não causem danos ambientais ou violem direitos humanos nos países onde são cultivadas.”
Como o cultivo comercial afeta Gana e a Costa do Marfim?
Para estimar o impacto ambiental com precisão, a equipe de pesquisadores cruzou dados oficiais de produção agrícola e índices de desmatamento com estatísticas de importação direta das alfândegas. A análise demonstrou que a vasta maioria do desmatamento associado ao cacau consumido pelos britânicos ocorre na Costa do Marfim, que representa 78% da origem do problema, e em Gana, responsável por 18% da degradação.
Ambas as nações da África Ocidental enfrentam taxas alarmantes de perda de cobertura vegetal histórica. Estudos científicos publicados recentemente apontam que, desde 1950, Gana perdeu mais de 65% de suas florestas originais. A situação da Costa do Marfim é ainda mais crítica, com uma redução superior a 90% de suas matas nativas. O Brasil, que também possui forte produção cacaueira (principalmente no Pará e na Bahia), tem buscado mitigar riscos semelhantes para exportação apostando em sistemas agroflorestais, como a “cabruca”, que preservam a mata nativa. Na África Ocidental, os principais fatores de devastação incluem:
- A expansão desenfreada de plantações de cacau voltadas para a exportação.
- O avanço de atividades de mineração legal e ilegal nas áreas florestais preservadas.
- A exploração madeireira não sustentável e sem fiscalização governamental adequada.
- O crescimento de outras frentes agrícolas concorrentes pelo uso do solo.
O que diz o governo sobre as novas regras para commodities?
O território britânico é o terceiro maior importador de produtos de chocolate do mundo, movimentando cerca de US$ 3,6 bilhões no último ano. Apesar dessa expressiva relevância econômica, o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais recusou-se a detalhar quando as regulamentações prometidas entrarão em pleno vigor. Um porta-voz oficial afirmou apenas que as autoridades estão revisando a abordagem estratégica para combater o desmatamento ligado ao comércio internacional.
A Ministra da Natureza, Mary Creagh, reconheceu publicamente a urgência de garantir que o consumo local não impulsione a destruição global, mas declarou que o poder público está ponderando diversos fatores práticos, incluindo os marcos regulatórios de outros países. Especialistas do setor ambiental alertam que a hesitação governamental está intimamente ligada à observação cautelosa das políticas adotadas pela União Europeia.
Ativistas climáticos projetam que, sem uma ação executiva rápida, o país ficará defasado em relação ao rigoroso Regulamento de Desmatamento da União Europeia. Embora os legisladores europeus tenham aprovado adiamentos recentes para a data de início da norma restritiva, a expectativa do mercado é que a legislação entre em aplicação plena em breve, exigindo obrigatoriamente que as grandes corporações comprovem cadeias de suprimentos auditadas e completamente livres de desmatamento ilegal. Esta mesma legislação europeia é alvo de intenso debate no Brasil, pois também exigirá garantias estritas de rastreabilidade para produtos do agronegócio nacional exportados para o bloco comunitário.
